No fim das contas, o Diabo pode ser um bom padeiro;
ainda que seu pão seja duro, amargo, difícil de engolir. Comer o pão que o
Diabo amassou é sofrer e ninguém passa por essa vida sem se despedaçar de vez
em quando. O sofrimento nos torna verticais, nos dá profundidade; alma. Não que
eu faça apologia do sofrimento. Não é o caso de sair cometendo autoflagelo, mas
de aceitar a alegria quando ela vier e aproveitar o que a dor ensina quando ela
chegar. A alma, é preciso merecê-la e tudo depende do que fazemos com nossas
dores, machucados, frustrações. Aquilo que arde pode se tornar um jardim ou um
assassinato. É a alquimia, o destino que damos ao que nos acontece que diz quem
somos... Será que podemos transformar a dor de ser deixado numa canção de
despedida? Ou permitiremos que tal dor nos torne desconfiados, ciumentos,
possessivos? Numa entrevista, Gilberto Gil disse que não gostava do que ele era
na época do tropicalismo; que não gostava de ser polêmico, combativo. Hoje,
depois das separações, de perder um filho, ele se considera um indivíduo muito
mais íntegro. Quando atravessamos um grande sofrimento, deixamos de perder
tempo com ninharias, intriguinhas etc e tals... Aprendemos a lição de que a
vida é algo muito maior. Perder um filho! Há no mundo sofrimento maior? E o que
é um chefe rabugento diante de alguém que perdeu o filho? Uma bobagem, não é
mesmo? No filme Árvore da vida, Terrence Malick aborda de forma magistral o
processo do luto, da fé como caldeirão no processo de sublimação desse
sentimento confuso e doloroso. Depois de perder o filho, a mulher reza, ora,
pede, busca entender, destinar sua dor. Deus não age com palavras, mas com
sopros. Ele fica silencioso, até que um dia acontece a graça, ela entrega, o
vento alivia a chaga, transforma sua ferida em mais carinho. No fim das contas,
é o frágil quem é forte. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se
acabe. Para os sábios chineses, a vida era um revezamento de Yin e Yang e a
sabedoria consistiria em não ficarmos eufóricos nos tempos de bonança, nem
deprimidos no tempo de escassez. A alquimia não trata de transformar o bronze
em ouro; mas de transformar a raiva, a dor, a angústia, em amor, o mais puro
amor. “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada
seria.”
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