domingo, 30 de setembro de 2018

O CAMINHO DO EREMITA


Quando eu for velho e sábio,
Quero me lembrar das agruras da vida com um sorriso nos lábios;
A vontade de competir, que me impele à batalha, já não será um fardo,
E vou olhar a vida sabendo que ela é o caminho e não o pódio.
Quando eu for velho e sábio,
Vou me lembrar do ímpeto da juventude,
E cultivar uma orquídea em homenagem a cada mulher que amei.
Meu sexo será calmo e escasso,
E, por isso mesmo, celebrado como a vitória sobre um vício.
Quando eu for velho e sábio,
Quero crianças por perto,
Pedindo doces, fazendo barulho, roubando a paz...
Quero ler textos sagrados, cultivar barba branca e adquirir lanterna e bastão.
Quando eu for velho e sábio,
Minha voz terá um tom mais suave,
E as paixões serão flexíveis como um broto de bambu.
Quando eu for velho e sábio,
Quero me despedir da vida como o som de um grande sino:
Suave, lento, distante, gradual, sincero, ondulante.
No fim, indiscernível do silêncio.
Quando eu for velho e sábio,
Vou encarar a morte como uma longa noite de sono,
E olhar meu corpo flácido como última cela
Para afectos, perceptos e ideias que agora vão morar em outros corações.