Isto se deu mês passado, no Guarujá. Fazia frio, eu tinha acordado cedo e fui caminhar na praia, enquanto a família dormia na pousada. Havia a areia branca e o mar azul. Surfistas se preparavam para enfrentar as ondas, enquanto outros já se encontravam em atividade avançada. Como é que os surfistas fazem para flutuar tão bem? É quase um milagre atravessar a vida assim, deslizando; sem oferecer resistência ao destino.
De uma lado da realidade estava eu; e, do outro, ela. O vento soprava forte. Ela era magra, baixa, branca-branca, jovem, cabelos curtos, moletom preto e óculos escuros. Assim como eu, tentava entender os surfistas e os invejava. Se eu, por meu lado, caminhava descalço; ela enfiava as pontas dos dedos na areia, ali onde a água ainda molhava. Nossos rostos se cruzaram, assustados com a densidade da manhã:
- Um cadáver me contou, certa vez, que sentia cócegas com o trabalho dos vermes na sua carne, logo de manhã... – Juro por Deus que ela disse isso aí, quando fiquei um pouco mais longe.
Ela era gótica e eu estava velho.
domingo, 9 de setembro de 2018
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