domingo, 10 de setembro de 2017

NOSTALGHIA

Muitas vezes, não sei bem o porquê, as pessoas vêm falar comigo. O tio da van sempre parava para bater papo enquanto as crianças não saíam da escola. Eu ficava ali, cumprindo meu horário e ele esperando. Eu o admirava pela paciência, pelo modo como se dedicava aos pequenos. Nem sempre é fácil lidar com eles. Geralmente conversávamos sobre trivialidades: o prato-feito mais gostoso da vila, a melhor feira livre, o pastel mais gostoso... Pelo modo como era delicado, eu sabia que ele tinha uma pereba escondida em algum canto sob a roupa: um amor fracassado, ou um filho morto, ou uma filha que caiu na vida... Algum espinho tinha. E eu o admirava por isso. Certa manhã, pouco antes do meio dia, ele estava triste; mais triste que o normal. O contrato dos donos de vans com a prefeitura tinha sido revogado e ninguém mais trabalharia. Aquele era o penúltimo dia de trabalho.
- E aí – ele disse.
- É, está chegando ao final, não é mesmo?
- Pois é.
- A canalha política sempre apronta dessas. Como é que você vai fazer agora?
- Sabe, profe, daqui a uma semana completo sessenta e cinco anos... Já estou aposentado. Amanhã volto para minha terra. Quero terminar meus dias por lá, no lugar onde nasci, onde sonhei.
- Isso é bom.
Ele suspirou, sorriu meio sem graça. O sol brilhou de um jeito estranho nos olhos azuis, no cabelo branco. A luz era tanto mão quanto carícia.
- Volto pra morrer em casa. Toda a vida, vivi uma ilusão. Até semana passada ainda sonhava com um milagre... Vim do interior para me dedicar à música, para viver de música, sabia? Nunca deu certo. Trabalhei, casei, comprei casa, carro, sítio, criei os filhos... Cantei em casamentos, mas nunca aconteceu. Agora desisti... Não tenho mais porque ficar aqui.
Eu não soube o que dizer. Fiquei quieto. Não demorou muito, as crianças saíram. Ele pegou as pequenas no colo e ajeitou no banco do meio, os maiorzinhos espalhados entre os bancos de trás e o da frente. Acenou com a mão. Alguém gritando.
- Inté, profe!
- A gente se vê por aí, Seo Genaro.
Deu a partida e saiu devagar, olhando o prédio, os grafites no muro, a quadra: todo o concreto em silêncio.
Quando os velhos voltam para morrer no lugar onde brincaram na infância... Quando voltam com troféus e sonhos não realizados nas malas, eu me lembro da miséria e da comédia humana e de um filme do qual ninguém gosta e da palavra que lhe dá título: NOSTALGHIA.

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