Não fui um adolescente fácil; mas não era minha culpa, é que, de repente, eu via hipocrisia em tudo: a tia moralista tinha tido um caso na juventude; o parente conservador tinha abandonado a família. Jovem é bicho muito exigente! E aí, com vinte anos, fui morar em Assis. Perdi uma pessoa que achei que levaria para o resto da vida e fiz o que qualquer garoto saudável e rock n´roll faria: farra! Disse a boca sob o bigode: “quando o orgulho está em jogo, a memória cede”. Cedeu, mas demorou alguns litros de cerveja e alguma dor de cabeça pra um bocado de gente que gostava de mim.
Como estava longe de casa, quem mais cuidava de mim era meu amigo Francisco. Ele era um pouco mais velho, já tinha família, quatro filhos. Éramos da mesma sala. Fazíamos todos os trabalhos juntos. Ele sempre aconselhando. Fazia questão de me levar pra almoçar em casa, antes de começarmos as atividades. Percebia que eu andava comendo muita água e pouca comida. Lembro da pescaria no sítio dele... Voltei com a sacola cheia de peixes, mistura pra uma semana.
Terminamos a faculdade, começamos a lecionar, voltei pra São Paulo, interessei-me por filosofia. O Francisco sempre foi um tremendo professor; eu, nem tanto. E então, em março deste ano, meu amigo Francisco morreu; assim, do nada. Aos cinquenta e sete anos. Fiquei sabendo na manhã seguinte. Larguei tudo aqui, peguei o carro e corri pra Assis. Levei duas multas por excesso de velocidade e, nem assim, consegui chegar a tempo... Mas consegui dar um abraço na esposa e nos filhos dele.
Outro dia foi aniversário do Francisco. Ele completaria 58 anos. O facebook me lembrou. Passei o dia pensando no cara e ouvindo as canções de que ambos gostamos. No dia seguinte, tinha de ir pra Amparo, visitar minha sogra que está internada. No caminho, um caminhão imenso fechou meu carro. Viajou à minha frente por uns trinta quilômetros. Na traseira estava escrito: TCHESCO. Apelido que eu tinha colocado no meu amigo, ao qual também chamava de Paco, dependendo do grau de pinga. Afeto, laços e sincronicidade.
Acho que hoje tento dar aulas melhores. Minha maneira de dizer que o incorporei a mim, Tchesco. De dizer sua importância. De relembrar nossos sonhos de escrita e leitura.
Qualquer dia, Francisco Campos, a gente vai se encontrar.
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