Vejo o café
caindo no bule e não consigo conter as lágrimas, mesmo assim continuo coando o
café. É incrível a capacidade que as coisas têm de prosseguir. Do fundo do bule
ouço o eco da sua voz grossa repetindo: Deixe disso menino, homem não chora.
Agora choro sim, mas não choro alto. Choro baixo, por dentro, porque até esse
café me parece impossível, absurdo, depois que ela se foi. Você dizia que eu não
tinha responsabilidade, pai, agora tenho. Tenho responsabilidades até demais,
mas minha filha vive longe, numa outra cidade, talvez você dissesse que isto
também é culpa minha e talvez até seja mesmo. Mas não quero me explicar. Sinto
asco desse eco da sua voz no bule. Sinto asco de tudo o que fomos e do
fracasso, do abismo que existe entre você e eu. Não vou ficar aqui explicando
nada, ou tentando te entender e me entender. Prefiro provar desse café amargo e
sair pra rua, embora saiba que a rua também não vai resolver. Embora saiba que,
na rua, as pessoas caminharão sem saber que ela morreu e já faz algum tempo. As
pessoas continuarão caminhando indiferentes, voltando pra casa, indo ao bar, à
padaria de pães frescos e perfumados, às farmácias que vendem a cura para quase
tudo. Prefiro, e isto é uma certeza, sair pra rua. Ainda que chova, não me
importa a chuva, porque é como se ela não me molhasse é como se essa dor imensa
me protegesse dos pingos, como aqueles anjos dos quadros que têm na cabeça uma
auréola dourada.
Há
tempos não faço a barba. Mas não pareço o leão, não aquele leão forte do circo
que o senhor dominava sem fazer o menor esforço, pareço mais com um cachorro,
um cachorro do qual o senhor nem deve se lembrar. Um cachorro sarnento,
banguelo e vesgo que um dia apareceu pelo circo, não me lembro em que cidade
estávamos, e ela, a nossa Carmen, o alimentou e cuidou dele, mas o senhor não
permitiu que ele, o cachorro, seguisse viagem com a gente e quando desmontamos
o acampamento e colocamos tudo nos caminhões e estávamos indo embora ele ficou
parado, quieto, no meio do terreno, nos olhando como se entendesse tudo.
O
senhor pode até estar achando ridículo todo este sentimentalismo, afinal, como
o senhor mesmo disse, ela nem era minha mãe, era apenas uma de suas mulheres,
mas foi ela quem me criou e cuidou de mim e me fez enxergar umas coisas bonitas
no mundo. É difícil pensar nisto tudo, ficar lembrando e relembrando, mas nem
sei se uma coisa que nunca sai da cabeça da gente pode ser chamada de
lembrança. Com certeza, você vai achar que estou exagerando, que estou pegando
pesado no sentimentalismo. Toda bicha é exagerada.Você costumava dizer;
mas, ao contrário do que você pensava, não sou veado. Sou homem, porra! E,
apesar de tudo, tenho até orgulho de me parecer com você em algumas coisas. É
verdade que não são muitas, na minha opinião, as coisas nas quais nos
parecemos, mas para Carmen sim, eram muitas as semelhanças, ela vivia dizendo
que eu me parecia cada dia mais com o senhor. Só queria saber por que você
nunca mais voltou? Queria saber o que foi que fizemos de errado pai, pro senhor
desaparecer assim? Depois que o senhor se foi, ela nunca mais tocou violão,
nunca mais colocou um daqueles vestidos vermelhos ou fez uso de suas
castanholas. Pra ela havia eu, que era parecido com o senhor, mas que não era o
senhor e muitas vezes eu me deitei com ela pra tentar consolá-la, não como um
amante, nem como um filho, nem como um marido. Não sei definir o que éramos um
para outro, só sei que não havia sujeiras.
Não
tenho casa pai. Talvez nisto também tenha puxado o senhor. Vivo neste quarto
até agradável, entretanto sei que amanhã, ou depois de amanhã, não estarei mais
aqui. Não sei se estou procurando pelo senhor, sei que não paro quieto e que
nós dois estamos juntos e sós neste mundo. De alguma forma, nós dois somos uma
coisa só, apesar de separada. Foi difícil pra mim admitir isto, sei que pro
senhor também será, mas é a verdade.
O
pior é que no final ela nem conseguia se levantar mais. Já não falava, estava
velha, murcha, triste, mas os olhos dela... Ah! os olhos dela, gostaria que o
senhor pudesse ter visto os olhos dela. E pra acabar de piorar tudo de vez a
Mariana, essa minha ex-mulher, começou a implicar com ela, estranhava talvez o
excesso de ternura que havia em mim por ela, Carmen. Ela nem é sua mãe. Dizia, também, constantemente, Mariana. Não
sei se ela desconfiava do que havia entre nós, mas o fato é que nos últimos
tempos ela, Mariana, não suportava mais olhar pra Carmen e Carmen também não a
suportava, isto percebia-se pelo olhar dela. O cúmulo, o ápice desta situação
maluca foi numa tarde em que eu cheguei do trabalho e encontrei a Mariana
esbofeteando feito um bicho doido o rosto da nossa Carmen. Num ímpeto cheio de
fúria expulsei essa mulher de casa, com filha e tudo, pus ela pra correr a
pontapés e coloquei Carmen na cama, as
lágrimas escorriam pelo rosto ainda moreno, e me deitei junto dela em silêncio,
no silêncio mais profundo e luminoso que o mundo já fez.
Abandonei
o emprego, contratei um enfermeiro, comprei um carro pra levá-la ao hospital,
cheguei até a me vestir de palhaço e animar festas como antigamente pra
conseguir algum dinheiro visando o tratamento dela, mas nada adiantou. Um dia,
de manhã, ela simplesmente não abriu os olhos.Como diriam em Minas Gerais,
acordou morta.
Enterrei-a
só. Chorei só. Voltei pra casa onde eu morava, só. E continuo só, mas não é uma
solidão pequena como essas de alguém que se tranca no quarto. É uma solidão
imensa, profunda, solidão de quem está só num mundo inteiro vazio. Por isto
escrevo pro senhor mesmo sem saber para onde enviar a carta, porque o senhor é
a única pessoa no mundo inteiro que pode me fazer companhia nesta dor. O senhor
é a única pessoa que pode habitar comigo esta dor certa, real,
indescritivelmente verdadeira e eterna.
Por
enquanto vou caminhando à noite e volto pra casa quase sempre debaixo dessa
garoa fina. Bebo o café que eu mesmo preparo e, quando sinto vontade, estendo
crisântemos e rosas vermelhas na janela.

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