quinta-feira, 7 de maio de 2020

ANJOS

Devo confessar: passei dias difíceis. Sou nervoso, instável, acelerado; faço quatro ou cinco coisas ao mesmo tempo. Hiperativo. Estou sempre voltando com a pamonha. A gente busca o que não tem; daí a prática espiritual. Essa é uma das faces, a outra é o oco. Simplesmente não sinto. É como se fosse para outro lugar e observasse um robô aqui embaixo, limpando o coco dos cachorros, lavando o quintal, a louça, fazendo o café. É como se alguém desligasse a televisão da tomada bem no momento do gol. Cria-se, entre mim e minha própria vida, um abismo. Quem acompanha o que escrevo, deve ter observado o urubu sentado sobre as palavras. Sinto muito. Preciso, no entanto, escrever cru como me dói. Caso contrário, não me livro e, daí, corro perigo. Enfim, andei bem mal. Uma estranheza no sol, no ar, nas pessoas, no meu quarto, em tudo. De repente, eu era um estrangeiro de mim mesmo. Moro só com meus cachorros e eles percebem tudo. Preocupam-se. Ao colocar água e comida, já não fazia cafuné na Dara ou jogava a bolinha pro Bruxo buscar. Ele insistia. Pegava a bola e soltava perto de mim. Mas eu não tinha forças. Estava liquidado. Os cães, todavia, não desistem. Então, hoje de manhã, estava lavando a louça, como sempre faço, com a janela aberta. O Bruxo se aproximou e soltou a bolinha da boca bem ali. Como eu continuasse em silêncio, esbravejou latindo por uns cinco minutos.
- Como é? Vamos brincar, ou vai continuar de fuleiragem? Reage, homem! Deixe de ser frouxo! Bora! Olha esse sol!
Só parou quando fui até o quintal e joguei a bolinha longe. Aí, então, o Bruxo abriu o maior sorriso do mundo e saiu correndo louco, mobilizando todos os seus músculos de um pastor alemão de um ano e meio. Vocês precisavam ver. Pura vida, hermano! Foi lindo!🌻

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