quarta-feira, 20 de maio de 2020
A FALTA
Acho que não acontece só comigo. Eu sinto falta. Em alguns momentos, há um motivo específico; em outros, é falta pura, fenda, lacuna. Não sei se esta falta nasceu comigo, se é fruto do trauma do parto, ou se surgiu de um gesto de amor não correspondido: o seio sem olhar, algum momento em que me senti abandonado quando pequeno. A falta é constitutiva do ser humano, ou adquirida na experiência? O pai de Sidarta Gautama, o Buda, privou o filho de qualquer visão que causasse sofrimento e trabalhou para que nada faltasse. Ainda assim, havia a falta, uma saudade imensa de. Talvez, todos nós a carreguemos, desde o instante anterior à concepção. E todas as vezes que esta ferida doi durante a vida - as coisas e pessoas que perdemos pelo caminho - é o chamado para nos lembrarmos de algo que. Alguém parte sem dizer adeus; alguém nos julga de modo injusto. A falta sangra. É dela que brota a saudade. Ôntica ou ontológica, pouco importa. Toda vez que a falta dói, há um chamado à mudança. E um ser humano não pode salvar-se do afogamento puxando os próprios cabelos. Nem conhecimento, nem dinheiro aquecem o núcleo oco do ser. Por outro lado, ainda que nos sintamos fracos, a princípio, há no vazio um manancial de força e criatividade. Se passarmos pelo portal, encontraremos todo um novo potencial de vida do outro lado. A vida a gente reinventa. O tempo da mudança chegou. Até ontem a porta esteve aberta. Agora, tranco a porta ao passado. Os pássaros cantam. Vou viver. Boa sorte.
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