quarta-feira, 20 de maio de 2020

UMA HISTÓRIA DE CAVALO

O potro e a eguinha nasceram no mesmo dia, com uma diferença de horas. Ambos eram cavalos de raça, destinados à corrida e à exposição. Embora não partilhassem a mesma mãe, cresceram na mesma fazenda. Brincaram juntos. Apostaram corridas pelo campo aberto. E, de tarde, enquanto o sol se punha, os dois deixavam de pastar, admirados. Ele esfregava, então, o focinho no pescoço dela, que sorria, bonita, faceira, fêmea e dizia:
- Eu ainda vou ganhar muitos prêmios. Vou ser a melhor égua do mundo!
E ele concordava com a cabeça, relinchava, e completava sem crer demais:
- E eu serei o maior cavalo. Quero correr!
Há no centro de todo ser um pressentimento de seu destino. Se fosse humano, os quânticos diriam que seu pessimismo atraiu o infortúnio. Como era apenas cavalo, nada pôde fazer quando ladrões invadiram a fazenda e o levaram. No começo, a eguinha sentiu saudade. Depois se acostumou. O cavalinho foi perdendo a cor em sua memória, ficando cada vez mais claro, mais claro e mais claro até desaparecer. Ela tinha muitos compromissos diários. Ele, por seu turno, nunca a esqueceu. Enquanto ela cresceu e se tornou de fato uma égua premiada; ele enfrentou as mais duras tarefas. Teve vários donos; um pior que o outro. Apanhou até de fio de ferro. Não tinha o couro nas costas; por conta da carroça que sempre pesava mais que podia carregar. E quando, por acaso, tombava, no meio da rua, era na base do chicote que precisava encontrar forças para se levantar.
Uma tarde, muitos anos depois, tornaram a se ver. Ela tinha ganhado mais um prêmio. Ao dono dele, permitiram que entrasse com a carroça para pegar o lixo reciclável. O coração do cavalo – prematuramente envelhecido - disparou. Talvez fosse amor. A égua famosa, premiada, imponente, não o reconheceu, no entanto. Sequer fazia ideia de quem era aquele cavalo todo esfolado, de olhos tristes, com bichos nas perebas e moscas atormentando as orelhas corroídas.🐴

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