quinta-feira, 7 de maio de 2020
GORDON MORAVA NAS MONTANHAS
Eu tinha ido estudar no interior. Dez horas de viagem. No princípio, ainda tentamos manter o relacionamento. Eu sempre dava um jeito e, todo final de semana, voltava. Fracassamos, como era de se esperar. Sofri. Era o primeiro. Eu não sabia que passava, ainda que demorasse. No domingo final, dormi a tarde inteira, no quarto dela, com os gatos espalhados sobre mim como se fossem. Eles também já sabiam e sofriam a saudade antecipada. Naquela noite, peguei o último ônibus, o qual deixava o terminal Barra Funda exatamente à meia noite. Como sabia que não conseguiria dormir, comprei um livro de dois reais – Seleções - naquelas máquinas do metrô. E era simplesmente o melhor livro de todos os tempos. E, quando o casal se conheceu, sorri. E quando fizeram amor, gozei. E quando os corações se partiram, o herói era eu. Finda viagem, esqueci o livro no ônibus, não anotei título ou autor. Tudo isto já tem vinte anos. O tempo dá saltos. Alguém escreveu o melhor livro do mundo e ninguém reparou. Eu, no entanto, prefiro ter perdido para sempre o contato; não quero lê-lo outra vez. Não consigo. O final é triste; difícil demais de suportar.🌻
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