quarta-feira, 20 de maio de 2020

CASANOVA

Tenho consciência de que tenho sido uma mãe superprotetora. Toda a vida, exigi mais beijos, abraços e declarações de amor do que meu filho desejava ofertar. Quando o pai se foi, fiquei sem chão. Tenho muito amor dentro de mim que quer sair, doar-se, depositar-se em alguém, sabe? Talvez o excesso de amor também seja doença. Já fiz meu menino passar muita vergonha na escola, diante dos amigos. Por um tempo, acho até que invertemos os papéis; ele parecia o adulto e eu a criança. Depois que meu ex se foi, isso já tem quase quinze anos, nunca mais consegui engrenar um relacionamento. De perto ninguém é normal. Mas eu me doei, sabe, e não foi em vão. Ele tornou-se um homem bom. E não é isso o que uma mãe mais quer? Observar as atitudes do filho, mesmo as menores, e poder dizer: “Criei um bom homem!” Sei que, quando ele ficou adolescente, impliquei com algumas namoradas e só deixei que fosse à padaria, há dois quarteirões daqui, depois que completou dezesseis anos. Você tem de dar um desconto. Eu só tenho ele no mundo e é um mundo tão violento! Basta ligar a televisão ou entrar numa rede social: é só tragédia! E os jovens. Os jovens não acreditam na morte. Fiz essa mea culpa para chegar ao dia de hoje. Não me justifico nem estou me expondo a julgamento. Teimo, no entanto, em dizer que não fui uma mãe tão má. E que, mesmo forçando-o a dormir comigo até há pouco, ele se tornou um homem e tanto; difícil de entregar nas mãos dessas periguetes de hoje. Meu filho, você precisava ver, deixou o cabelo crescer desde que tinha quinze anos. Era a coisa mais linda. Liso, castanho clarinho, com algumas mexas loiras. Minhas amigas mesmo diziam: “Se fosse mulher, não teria cabelos assim!” Ele sempre adorou aquelas madeixas, xodó mesmo, sabe? Eu sou cabeleireira. As meninas perguntavam: “Você faz chapinha nos cabelos de seu filho, não faz?” Que pergunta, né? De jeito nenhum. Tudo natural. Ô menino lindo! E, então, veio essa crise. E a gente com aluguel pra pagar; tanto do salão, quanto da casa. As contas chegando sem parar e o salão fechado; semana após semana. Deu desespero, sabe? Crise de choro e tudo. Então, hoje, meu menino levantou cedo e saiu. Perguntei aonde ia e ele não respondeu. Voltou agora de tarde, meu filho, com a cabeça raspada; tirou mil reais dos bolsos e colocou em cima da mesa.
“Que diabos você fez?”
“Vendi meu cabelo pra ajudar a senhora a pagar as contas.”
Ah, eu chorei, sabe? Beijei! Cheirei ele da cabeça aos pés! Meu menino ficou ainda mais lindo de cabelos raspados.🐞

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