quarta-feira, 20 de maio de 2020

QUEM SABERIA PERDER?



A velhice merece respeito. Só eu sei o que passei para chegar aos quarenta. Que se dirá, então, dos oitenta? Quanta decepção, resignação e resiliência para se atravessar; quanta dor sentida e provocada? Com o tempo, a gente não busca mais culpados. Aprende que a vida junta e separa. A menina acolhe um menino; tempos depois, a mulher deixa um homem. Quanto segredo de amor escondido por aí? Sou de uma geração que ainda sonhou encontrar um amor para a vida toda; igual ao dos pais. Ninguém se casa pensando em divórcio. Fracassei. Tenho dois filhos com duas mulheres diferentes e não vivo com nenhuma delas. A luta desta hora, no entanto, pede que eu saiba perder. Ver o lado bom. Não há outra opção. Ao menos, nessa dança das cadeiras, a gente se desvela por inteiro. É que cada dois formam um casal diferente. E aquele que fui com uma parceira, não é o mesmo que serei com outra. Cada mulher conhece um homem. Cada parceira cria em mim uma versão que permaneceria como potência. Não é pouco. Cada vinco e ruga do meu rosto guarda uma história de vida, sonho, sinceridade, amor e morte. Quem saberia perder sem procurar culpados? Não o menino de dezoito que fui.
Recomeço.

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