quinta-feira, 7 de maio de 2020

SE VOCÊ PUDESSE LER MINHA MENTE, AMOR

“Desculpe por não ser alegre”. Foi a primeira coisa que ele disse. No meu trabalho, enfrento todo tipo de homens: escrotos, pegajosos, chauvinistas, alegres, babacas; mas os que mais me procuram são os tristes. Deve haver um motivo. Sou garota de programa e não comecei ontem. De modo que conheço um pouco do ofício. Sei o que sei. Em sua grande maioria, são carentes, os homens. Eu ouço. Dou o que querem. Não é apenas um ou outro que prefere conversar. Pornografia eles vêm em toda parte, basta abrir um site; aceitação e abertura não. Ele veio com os amigos. Estavam dispostos a fazer farra. Os cartões de crédito não tinham limites e clientes assim são bem tratados. Eu não sei o que nos aproximou. Eu poderia ter encostado em qualquer outro, só que não. Alguma força, talvez, como aquela que opera entre o Sol e a Terra, entre a Terra e a Lua, entre a Lua e o mar, entre o mar e os afogados: a limalha de ferro ganhando a forma do ímã oculto; destino, enfim. Ele me tratou com carinho, mas fez com força. Um homem pode muito bem ser forte e terno ao mesmo tempo. E disse uma coisa:
- Eu já estou morto!
De um modo tão verdadeiro que quase pude ver através dele. Se abrisse a camisa naquela hora, creio que enxergaria o coração trincado como se fosse de vidro. Os heróis falham. Alguns homens são seres humanos. Temos de chamar as coisas pelo nome e aquilo era uma tremenda suruba. Acontece que, uma hora lá, ele me chamou para um quarto separado. Trepamos como. Pouco antes de amanhecer, pediu que eu buscasse mais uma cerveja. Demorei um pouco, porque estavam fechando o caixa. Quando voltei, ele tinha se enforcado com o lençol amarrado ao suporte da televisão. Como assim? Aquela carne roxa flutuando feito assombração? Semana seguinte, não consegui trabalhar. Agora, queria saber, que tipo de dor leva alguém a cometer suicídio, a se enforcar porra, no meio de uma orgia?

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