quarta-feira, 20 de maio de 2020

MEU AVÔ NASCEU DURANTE A QUARENTENA

Ele nasceu quando o vírus.
Naquele tempo, as pessoas já tinham se acostumado com a máscara havia mais de geração. Todos deviam usá-la, porque o ar estava, irremediavelmente, contaminado. De modo que várias empresas diferentes confeccionavam máscaras, as quais adaptavam-se ao rosto durante toda a vida. Quando um bebê nascia, antes do primeiro tapinha, o médico já inseria a máscara; produzida pela indústria farmacêutica de preferência. Era assim que se reconheciam facilmente os Bayer, os Pfizer, os Axé e os que mais sofriam perseguição: os Cimed, que usavam as máscaras mais baratas. Era só por isso que as pessoas ainda sabiam que a máscara estava lá. Do contrário, teriam-na esquecido. A máscara era o rosto.
Ele não era nenhum Messias. Não queria salvar mundo. Salvar-se já estaria de bom. Tampouco foi por escolha que resolveu tirar. Durante vinte anos, sofreu com as inflamações. A máscara simplesmente não se adaptava. Criava-se pus nas extremidades, perto do pescoço ou da nuca. Ele gastou muito dinheiro. Tentou todos os tipos de. Mas nenhuma era confortável. Até que, certo dia, não suportando mais a dor, Doni-Ê resolveu arrancar a máscara. Que se contaminasse. Que o vírus invadisse seus pulmões. Que deixasse de respirar. Que morresse!
Madrugada; solidão; ante o espelho; viva e deixe viver; puxou uma beiradinha da máscara que estava solta: pus, sangue, dor. Continuou arrancando. Era o mesmo que arrancar a própria pele. Ao mirar outra vez o espelho, deu-se conta de duas coisas: 1º continuava vivo; 2º seu rosto era uma ferida. Ferida é outro nome para vida. Desconsolado, constatou que teria de continuar a existir com uma massa de carne machucada no lugar da máscara. Com o tempo, no entanto, as feridas foram cicatrizando. E, a cada dia, seu rosto ganhava mais brilho, mais cor, mais beleza. Quando o processo de cicatrização terminou, mesmo com as marcas, Doni-Ê era o homem mais bonito do planeta, ainda que não se percebesse. No fim das contas, ele era o único que tinha um rosto; enfrentando a ânsia de viver com tudo o que há de bom e ruim nisto.🐴

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