quinta-feira, 28 de maio de 2020

JUSTIÇA E HUMILDADE

Penso nestas duas palavras. Observo-me e vejo que é na vida diária que a transformação do real acontece. É quando lido com minha ex-mulher e consigo saltar os sentimentos negativos envolvidos num divórcio que sou justo. Porque nenhum homem é melhor que nenhuma mulher apenas por ser homem. Pratico a justiça quando reconheço que errei e tento reparar. Fui criado assim, cultura de periferia, mas isso não justifica: homens e mulheres têm os mesmos direitos, inclusive no que se refere ao sexo e ao prazer. Então, não deveria ter me dado ao direito de transgredir, porque a base de qualquer experiência de humildade é não se colocar num patamar superior; é recusar o privilégio. A História está cheia de humanistas para o mundo, mas tiranos em seus lares. Vejo, deste modo, que a prática da humildade, como tudo o mais, não começa com o outro, com os grupos historicamente marginalizados; às minorias – e a minoria é sempre qualitativa – não foi dada a opção de serem humildes, porque o poder as relegou a um papel subalterno; na marra. Sou eu quem devo me reconhecer singular em minha diferença e desejar ao outro o mesmo que desejo a mim: o melhor. Difícil, mas não impossível querer que a mulher que a gente um dia amou – eroticamente - encontre um parceiro e que o amor ressurja com todas as suas nuances, inclusive sexuais - o mais duro de imaginar para um machista como eu. Não podemos mais usar palavras esvaziadas de sentido como a sociedade, o homem, ou a humanidade. Tudo isso somos nós. É banal a intenção mudar o mundo, sem antes olhar nosso tirano interior. Sou eu, no cotidiano, quem tenho de estar disposto a dividir do modo mais justo as tarefas. Sou eu quem tenho de abrir mão de privilégios historicamente instituídos apenas por ser homem. É em mim, na minha casa, ao meu redor, que acontecem a justiça, a humildade, o amor e o mundo começa a mudar. Demorei muito tempo para escrever este texto, porque minha palavra sempre passa pela carne e foram necessários divórcios, dores imensas, relações naufragadas para reconhecer que, no íntimo, eu não era um homem honesto, nem justo, muito menos humilde; uma vez que não podia respeitar os contratos do amor. Estou esculpindo a mim mesmo com as ferramentas que encontro pelo caminho; tentando ser um homem melhor e ele nasce é nos pequenos gestos anônimos e diários como assar um bolo para alguém que amo🌻

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