terça-feira, 14 de abril de 2020

NOSSA SOLIDÃO

Sou um homem simples, rústico até. Sei trocar lâmpadas e torneiras, faço serviços de manutenção. Com uma enxada na mão, derrubo muito mato por aí e consigo mexer uma masseira sem precisar de ajuda, mas tenho esse defeito. Um buraco sem consolo no meio do peito. Uma vontade que não sei; de ser compreendido, aceito como sou, curado. Desejo de que alguém encontrasse esse vazio que escondo do mundo e me tocasse bem ali, delicadamente, onde ninguém. Criança costuma ter amigo imaginário. Eu, desde cedo, tive namorada. Era ela quem se deitava comigo nas noites frias; apalpava meu coração e perguntava: é aqui? E eu dizia sim e ela massageava e a dor arrefecia. Eu também sempre estava ali pra ela. No meio da noite, levantava-me e cruzava os braços ao redor de mim como se ela estivesse entre e dançávamos juntos até o dia. Quando raiava, ela se escondia de novo. Nosso segredo, sabe? Ela em mim enquanto todos os outros eram unos. E foi com essa mulher que ensaiei meu primeiro beijo. A primeira noite de amor. A pureza que guardei por esperança. Era ela quem me consolava quando eu perdia briga. Na periferia, não há vergonha maior. Seria essa mulher que não existe quem um dia se congratularia com minhas realizações e me deitaria no colo nas noites de fracasso. Tudo inútil; estúpido; antiquado. Quando as pessoas nos encontram, procuram fazer de nós seu próprio parceiro imaginário; do mesmo modo que nós. E todo o mundo, toda a travessia, geração após geração, envereda-se na mesma confusão. Mas e o amor? O amor? O amor? Chega a ser cômica a solenidade com que sofremos; como se fôssemos únicos, quando todos os outros, desde Adão e Eva, passaram pelos mesmos lugares, caíram nos mesmo buracos, sofreram do mesmo sofrimento. A dor parece única porque é grande. É por isso que penso em doar, sabe? Por pena do que vejo de mim no outro. O único sentido possível é se despojar de tudo: doar, doar, doar. Livrar-se primeiro de todos os bens materiais, depois dos documentos, do nome e até do pronome “eu”. Doar até dissolver a inveja, esquecer a vingança, até rasgar o orgulho. Doar até desaparecer; mas não por vingança do mundo e sim por amor. A vida é um lugar hostil. Sejamos delicados uns com os outros; toda a gente carrega um sonho apodrecido na barriga.🌻

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