Porque ambos gostavam de flores, o negócio do casal era uma floricultura. Estavam casados havia oito anos. Não tinham filhos. Eram jovens; de modo que, por algum tempo, queriam curtir o amor. Com a floricultura, não ficariam ricos; levavam, entretanto, uma vida confortável e podiam namorar o dia inteiro; entre rosas. Além disso, as vendas de fim de ano garantiam uma viagem todo mês de janeiro.
A ideia fora dela. Vira no site da cidade a respeito de uma feira de orquídeas raras em Holambra: “por que não vamos? A gente aproveita pra passear. Fechamos no almoço, passamos a tarde lá e, de noite, voltamos”. Foi um lindo dia de sol; mas, no final da tarde, começou a chover e não parou.
Na volta, aconteceu.
Ela estava cansada. Ele sugeriu – e isso o marcaria para todo sempre – que ela se deitasse no banco traseiro pra dormir melhor. E, aí, no meio da Bandeirantes, do nada, o carro apagou: pane elétrica. Ainda chovia. Sem se desesperar, como era de seu feitio, ele foi jogando, aos poucos, o carro para o acostamento. Mas havia um treminhão no meio do caminho; o qual, na faixa derradeira, tentou desviar do Pálio justamente pelo acostamento, onde a colisão aconteceu. O corpo dela atravessou o para-brisa e aterrissou dois metros à frente, no asfalto molhado, coberto de flores e besuntado de tanto sangue que até parecia cobertura de morango em bolo de casamento. Daí pra frente, ele nunca se recuperou. Anda com a mesma calça de moletom imunda há anos e acompanha todos os enterros que acontecem no cemitério Primavera II - Guarulhos; na esperança de encontrar outra vez a mulher que ama; viva ou morta.
É branco, macho e heterossexual. Em suma, um canalha.🌻
sexta-feira, 3 de abril de 2020
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