quinta-feira, 30 de abril de 2020

ÁGAPE

O inconsciente é o modo pelo qual a Desmesura move os seres humanos em direção uns aos outros; de acordo com suas necessidades. A filha, no seio do devir, torna-se mãe da mãe. Tive uma infância difícil, sabe? Era a oitava filha de uma família de onze crianças. Não passamos fome – sempre havia a macaxeira, o jerimum -, mas não houve luxo. Nunca uma festa de aniversário, dia das crianças, ovo de Páscoa ou presente de natal. Nunca. Isto não é grande coisa, reconheço. Não chega a constituir trauma neste mundo de agonias impensáveis. Eu, no entanto, invejava as crianças que tinham acesso a mimos. Hoje, graças a Deus, tenho uma vida estável e posso ofertar à minha filha todas aquelas coisas às quais nunca tive acesso. De modo que, nesta Páscoa, comprei meia dúzia de ovos de chocolate. Acontece que minha menina, cinco anos, tem uma amiguinha, a Vitória, vizinha aqui de lado. Domingo passado, Páscoa, as duas estavam conversando através da cerca:
“O que você ganhou de ovo de Páscoa, Vitória?”
“Nada. Meu pai não tá tlabalhando, causa do cololavilus, não tem dinheilo.”
Eu observava da janela da cozinha, enquanto passava o café. A filha entrou triste, quase chorando. “Mamãe – disse – posso dar um dos nossos ovos pra Vitória?” Meu coração gemeu. “Claro.” Ela se alegrou. Pegou o ovo do qual mais gosta, Alpino, e se preparou pra entregar à amiguinha. Quando nos viu voltando, Vitória não se conteve. Atravessou a cerca pelo meio. E correu pra receber. As duas meninas, então, abraçaram-se e choraram juntas, como se fossem comadres dividindo o pão escasso entre os filhos. Naquele momento, eu era Vitória e minha filha tornou-se minha mãe. Algo se acomodou e, de dentro do meu próprio coração, ouvi a voz de minha mãe sussurrar: “Deus te abençoe, minha filha”.
Descanso.🌻

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