quinta-feira, 30 de abril de 2020

A CORAGEM DE ESCREVER



O poema não se fará dizer por meio de covardes.
“Nada vejo por esta cidade / Que não passe de um lugar-comum / Mas o solo é de fertilidade”. Flaubert, Deleuze e Zé Ramalho da Paraíba dizem o mesmo. Falam da besteira. É preciso ter coragem para escrever; porque há, na sociedade, um peso da mediocridade que quer nivelar tudo pelo meio. Então, se o escritor, por medo de machucar alguém que ama, ou de enfrentar a maioria, deixa-se puxar, perdeu-se. É preciso talento para escrever; mas, não menos, é preciso coragem. Besteria, bêtise, bestagem, tudo tem a mesma raiz: a besta. A cultura também pode ser bestial quando nos sufoca com uma muralha de palavras-de-ordem, chavões, frases-feitas, sentenças-politicamente-corretas, lugares-comuns; enfim, os discursos. Quando você escreve algo que difere disso, imediatamente estará magoando alguém (de direita ou esquerda): um amigo, namorada, professor, filho, parente. Ao saltarmos, toda a sociedade faz peso para baixo, em direção à média. Vão tentar intimidá-lo: falarão de Shakespeare, e António Machado, e Clarice Lispector; no tempo deles, todavia, enfrentaram a mesma incompreensão. A educação também quer nivelar. É preciso ler e parar de ler; educar-se a si mesmo. O poeta, sozinho, intenta puxar os outros para cima, levantar o humano; ao passo que a maioria força-o à linha mediana. Coragem! Para dizer o poema é preciso que, mergulhados com os outros na besteira, encontremos a nuance; a carta roubada sobre a mesa que ninguém viu. Ela está sempre aí, em qualquer situação cotidiana. É mergulhado na besteira que devolvemos à palavra sua alma, que a haurimos com o poema. A besteira é democrática, é mesmo a coisa mais bem distribuída do mundo e, no entanto, é o solo de fertilidade; pois, uma vez que restituímos à palavra sua magia, floresce o poema. Neil Young escreveu que a ferrugem nunca dorme. Ele é rancheiro e viu esta frase num depósito de materiais para construção. Ao transportá-la para o contexto dos anos 1970, mortos todos os sonhos dos 1960 - e muitos amigos de tristeza, overdose, depressão, suicídio - à sentença foi restituída sua dimensão sagrada de arte. A coragem, contudo, não é só uma virtude do poeta. Logo que dermos o primeiro passo em direção ao dizer, uma força descomunal brotará em nosso coração: é a força do poema.

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