terça-feira, 14 de abril de 2020

DOAR

Embora serena, a lua não é indiferente
Nela, ressoam todos os destinos humanos
Por isso, preciso doar
Quero doar minha casa
Meus versos, meu carro, meu tempo
Quero doar minhas vestes ao mendigo
Meu ouro aos meus filhos
Minha prata ao andarilho
Almejo pão e nudez
Coração que não calcula
Olhar que não malda
Chega de carregar nos ombros um peso inútil
A mim me basta o pandeiro
Quero doar meu coração
Meu amor
Meu sorriso fácil
Todos estes anos de luto e dor
Eu transformo e te dou em jardim
Aceita, então, minha amizade
As tardes de Maria Joana e chocolate
Como pude pronunciar o pronome "meu"?
Como pude dizer "eu" sem corar?
Sou tão leve sem posses
E me irmano ao passarinho
E canto sozinho ou acompanhado
Pelos faxineiros
Caminhoneiros
Saltimbancos e garis
Quero ser dono de nada não
Só cuido por um tempo
E depois abro mão
Ninguém pode possuir a lua.

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