sexta-feira, 3 de abril de 2020
CORAÇÃO: ENTRE O ÔNTICO E O ONTOLÓGICO
A maioria de nós quer amar. Entregar essa reserva de carinho e ternura que levamos no fundo. Como estamos todos doentes, enganando a nós mesmos e ao outro, confundimos este cuidado com controle. Cuidamos do outro na esperança de controlá-lo. Quando ele resiste à brida, chamamo-lo ingrato. Tal reserva de doação, no entanto, não encontra objeto neste mundo de imperfeição. Só quando voltamos tal amor para dentro, de tal forma que o dentro seja uma porta para o Fora absoluto (a Humanidade, a Terra, ou o Mundo, ou o Tao) é que encontramos um pouco de serenidade. E sofremos, todos, durante a jornada. Um perde o amigo, outra tem uma mãe maquiavélica, outro angustia-se com o futuro-já-não-possível. Para frente ou para trás na Travessia é impossível contornar o sofrimento. Tudo o que é do âmbito da experiência – o temporal – pode ser definido como ôntico. O ôntico é conteúdo, a água dentro do balde. A modernidade baniu de uma só vez o Espírito e o ontológico; o que não quer dizer que ambos deixaram de existir. Na alegoria, o ontológico seria o balde, a forma; ou, como disse a esquizo: “esta mira”: aquilo que não está sujeito ao tempo. O ontológico é a abertura que sou diante do mundo: a fenda da vagina da mãe dentro de mim. Numa outra alegoria, o ôntico seria a árvore, ao passo que o ontológico, tanto a semente quanto a raiz. O que quero dizer é o seguinte: se a árvore adoece, a cura está no retorno à raiz, porque a raiz é o lugar de contato com algo muito maior: o solo, a Terra, o sistema solar, o universo, o todo. A terra é a devoção da árvore e a porta que permite que ela erga seus galhos aos céus. A água suja dentro do balde não pode trocar-se só. Nada há na experiência que cure a experiência, só o retorno à forma é que nos dá um vislumbre da paz; e, então, por uma pequena fissura no balde, é possível que a água suja escorra à medida que nova água cristalina tome a forma. O balde é a alma, ou a raiz: o vazio transcendental que dá forma à nossa jornada pela vida. No entanto, se prosseguirmos na viagem, a raiz, a fenda no balde, a alma são apenas portas para algo imenso ante o qual devemos ser submissos, devotos, pequenos: humildes, sobretudo. O amor quer voltar-se ao Amor. Esta semente de amor que carregamos no fundo de nós só encontra objeto no Incomensurável. Não se trata de fortalecer o ego, mas diminuí-lo. O ego só pode reprimir e controlar o modo como as reações interiores se dão no exterior; mas existe sim esta instância transcendental que semeia o amor no fundo da alma e para onde este amor quer voltar. A única pergunta é: ainda podemos chamar esta instância de Deus depois de todas as ignomínias que foram cometidas sob o manto deste nome?🌻
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