terça-feira, 14 de abril de 2020
INVEJA, INFIDELIDADE E METANOIA
Conhecemo-nos na faculdade. Ambos escrevíamos, mas eu pensava em uma carreira e ela não. Menino-homem, achava que precisava ser bem sucedido pra ser amado. Sob minha influência, com o tempo, ela também se afirmou escritora. Acontece que, tudo que ela tentava neste sentido, dava certo; ao passo que todas as minhas investidas fracassavam. Ela foi publicada na Alemanha, leu em Portugal, ganhou prêmio; todos pronunciavam seu nome com respeito. Seus lançamentos lotavam, seu blogue era frequentado e, tempos depois, seu Facebook ainda mais. Não é grande coisa o sucesso literário num país onde ninguém lê e imperam as panelas; mas era nosso sonho e, enquanto o dela se realizava, o meu apodrecia e me apodrecia junto. Cada elogio dirigido a ela, feria-me, dilacerava meu ego e meu orgulho. E então, afastei-me e, como se a culpa fosse dela, decidi me vingar. Eu também sempre fui erótico, devo admitir: safado mesmo; mas, como a mulher do padeiro n’O alto da compadecida, eu a amava tanto, de modo tão confuso, que, quando a traía, sentia que matava-a um pouco dentro de mim. E, quando conquistava outra mulher, sentia que não precisava dela, tampouco de seu sucesso. Além disso, bebia. Com o tempo, a inveja e o fracasso me corroíam de tal modo que eu não queria mais fazer parte da realidade compartilhada. Bêbado, louco, não precisava de nada, nem de ninguém. Mentia e era o primeiro a acreditar na mentira. Eu estava muito doente, mas continuava trabalhando; dando aulas, odiando os alunos e meus colegas de trabalho, porque ninguém dava a menor importância para o que havia de bonito dentro de mim. Eu era como a matriarca que cozinha seu melhor banquete e nenhum dos filhos aparece; como o filho que leva o desenho que fez na escola pra mãe e a mãe joga fora. Eu odiava a tudo e a todos, menos meus filhos. Não me sentia bem dentro daquele tumor; mas, feito camelo na areia movediça, quanto mais eu me esforçava pra sair, mais me afundava. Até que veio a catástrofe. Fui internado. Perto dos quarenta, perdi completamente a liberdade. Aquilo não era uma clínica, era um covil de mafiosos. Alguns internos já tinham sido presos e afirmavam que era pior que cadeia. E, então, aconteceu a metanoia. Eu não tinha sequer como escrever, porque um interno podia furar o outro com a caneta. Dias e dias sem ouvir uma canção. Pensei em suicídio, mas o banheiro não tinha portas, as lâmpadas eram inacessíveis. Simplesmente, não tinha como morrer. Em situações assim, o ego se dissolve e foi aí que me lembrei da Bíblia que minha mãe tinha me mandado. Comecei a ler os evangelhos e o sentido me transpassou. Aconteceu também com Dostoiévski, na Sibéria. Não é nada de uma religião específica, só uma corrente de amor em mim. De lá pra cá, tenho retomado a vida, lentamente. O casamento acabou. Tenho dias bons e ruins, mas não quero ser senhor deles. Como os girassóis, tento virar o rosto em direção à luz a cada manhã. A sombra não precisa ser integrada. A luz não tem sombra. Se você conseguir transferir o ser para a luz; o ego, que é o objeto que produz a sombra, dissolve-se e, com ele, o reflexo na parede.🌻
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