terça-feira, 14 de abril de 2020

TRISTESSE

Dia desses, fui visitar meu amigo trompetista. Agora ele é caseiro de um sítio. Tudo para se afastar das loucuras. Tempos atrás, quase morreu. Sempre que posso, ajudo-o. Às vezes, com dinheiro; outras, com mantimentos. Desta vez levei algumas roupas. Ele já tem mais de setenta, mas nunca conseguiu se aposentar. Estou tentando ajudá-lo nisto também. É um homem simples, esse meu amigo, que vive para a música. Durante a tarde, caminhamos pela propriedade, jogando conversa fora. Observando as árvores, notei pregos. Segundo ele, os antigos usavam tais pregos quando as árvores não davam frutos. “Não sou biólogo – ele disse – mas este abacateiro é o que mais dá”. Assim que a noite caiu, por diversão, entre um trago e outro, enquanto o jantar ficava pronto, decidimos tocar. É começar e não parar. Fumaça, fumaça, fumaça. Sopro. Virava e mexia, ele cuspia numa latinha. Sopro. Fumaça. E eu curioso. Quando pude, olhei. A latinha estava cheia de sangue. Mesmo sem ninguém por perto, meu amigo tocava diariamente. De modo que os lábios estavam sempre feridos. Isso não quer dizer que sua música seja triste. Pelo contrário: a alegria nos quadros de Van Gogh, entende? Não sou fã de sofrimento autoimposto. Quando vejo um buraco, desvio. Pode-se muito bem cantar na alegria e até no cinismo. Há uma grande arte cínica que passa por nomes como Salvador Dalí, ou Oscar Wilde. A mim, no entanto, toca mais a arte que é prego na carne, sangue no lábio: ostra confeccionando pérola para se curar. O Wilde que mais me emociona está em De profundis, não no primeiro. Depois do jantar, fiquei pensando qual seria o motivo para o mundo tratar tão mal seus líricos, seus cantores ingênuos, os puros. Existe um castigo terrível reservado neste mundo aos corações delicados.
Quando vim-me embora, pelo retrovisor, observava meu amigo se despedir, de dentro de minhas roupas largas demais. Parecia um espantalho. Eu e ele não somos muito diferentes, sabe? Temos a coragem do nosso próprio rosto. Independentemente do que vier.🌻

Nenhum comentário: