quinta-feira, 30 de abril de 2020

ESTADO E RESISTÊNCIA

No começo, vivíamos em harmonia com a Natureza, feito qualquer tribo. A estrutura da sociedade era uma extensão da Natureza. Como só retirávamos o necessário, a mãe doava sua ordem à ordem da tribo e a ordem da tribo respeitava a manifestação da Desmesura em cada ser. Se um homem nascia profeta, seria o profeta da tribo. A ordem natural é a recompensa que o homem ganha em virtude de sua humildade ante o solo que o sustenta. Mas, então, chegaram os carecas engravatados. Distribuíram máscaras de carecas engravatados para que todos tivessem o mesmo rosto. Cuspiram na face da Terra, desrespeitaram o chamado natural com o qual a naturalidade nutria cada ser para que nada faltasse na organização social. Fundaram o Estado. Todo Estado quer crescer, violentamente. Seu pressuposto é a agressão à Natureza. O Estado, por seu turno, criou um braço armado; bem como invadiu a infância. Não devíamos construir mais escolas nos moldes que aí estão, mas implodi-las; elas são as fábricas de ferramentas. Já ouviram a expressão material humano? O Estado invadiu, desde o berço, o interior de cada ser, de modo que o homem esqueceu sua origem ontológica. Não é só o supereu que é a estrutura do Estado dentro da gente. É a tríade Supereu, eu, id. Tudo isso é uma imposição exterior à naturalidade. A máscara estatal aplicada ao ser. Agora, o Estado-exterior-enquanto-imposição já não é necessário, porque ele vive dentro de cada um: liberal na economia, conservador nos costumes. O mal-estar é o Estado em nós, sufocando a voz ontológica, o colo da Natureza. O Estado é sempre antinatural. Se quisermos surfar de acordo com a naturalidade, devemos ser resistência ao Estado. Parte-se do menor para o maior e, de novo, do maior para o menor, em espiral. A resistência é sempre uma minoria que teima em afirmar a face no lugar da máscara. Assim, o ser humano autêntico, está sempre do lado da minoria e contra o Estado. E a minoria das minorias é o próprio indivíduo, dentro de qualquer grupo. Mas não o indivíduo cujo interior já é uma reprodução do Estado, mas aquele do interior selvagem, incapturável: o Homem-Equus! Ele é o indivíduo que não se reconhece como centro, mas como parte; do maior para o menor: parte-se do Universo (ou céu), passa-se à Terra, da Terra ao grupo e do grupo à singularidade que nunca representa a voz de um ego, mas da própria Consciência. Aquilo que o indivíduo diz e que o girassol manifesta devem ter a mesma origem: este falar é sempre poético. Desconfio sim da Ciência, mas creio plenamente na Arte. Contra os carecas engravatados, contra toda cultura antinatural, contra o Estado. Sempre a favor daquela ordem maior, que nutre a órbita dos planetas e a pequena serralha nascendo entre dois blocos de concreto.🌻

Nenhum comentário: