terça-feira, 7 de abril de 2020

LANCELOT

Considero-me um homem de esquerda, no sentido de saber que o mundo não começa com minha pessoa e que eu apenas sou mais um; contribuindo com a humanidade a partir dos meus braços e ideias. Não acredito, no entanto, no materialismo, ou numa revolução que reforme a sociedade sem levar em conta cada indivíduo. Como podemos mudar a ordem social para melhor, se a maioria de nós não consegue ficar bem consigo por alguns dias? Como pode haver um mundo melhor, quando a gente pensa numa distribuição de renda mais justa, mas cobiça sexualmente, apenas pra satisfazer o ego e o desejo, uma mulher casada, cujo amor é o bem mais precioso para outra pessoa? E, o que é pior, muitas vezes, cede. A gente fala de revolução, porque acha mais fácil mudar o mundo que a gente mesmo. E, ao projetar a sombra no mundo, tiramos parte de nossa responsabilidade em começar a alquimia, a única revolução que está bem aqui ao nosso alcance agora: a revolução interior. O capitalismo selvagem não é causa, mas consequência do ego desejante incomensurável. A confusão que vemos na sociedade é o reflexo do interior de cada indivíduo. Transformar o mundo, quando a gente ainda nem pensou em transformar a si mesmo, é um desejo que parece muito bonito, mas que também parte do ego e de sua estrutura megalomaníaca. Isso quer dizer que devemos aceitar passivamente a injustiça social? Não. Quer dizer que a tarefa é muito maior do que imaginávamos, mas que é possível e pode começar agora mesmo, com cada um de nós observando corajosamente seu próprio coração.
O inimigo não começa fora.

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