sexta-feira, 3 de abril de 2020

ELE NUNCA SUPEROU - II

Há, no mundo, dores que podem levar até os espíritos mais fortes à loucura. Quando o filho morreu, vi seo Edmir enlouquecer. O velho ficou preso no momento mais doloroso que um ser humano pode. Neste tempo, eu tomava conta do bar. Antes do crime, ele já bebia; não tanto. Era aposentado; ainda assim, continuava trabalhando, vendendo tuppeware, panela, prato, numa Kombi velha. Depois do incidente, eu o via chegar logo cedo, os olhos vermelhos e inchados de ter chorado a noite inteira, pedir uma pinga, pegar o copo e desabar de novo, antes mesmo de levar o copo à boca. Talvez o rei Davi tenha se sentido assim quando Absalão morreu. Triste. Seo Edmir tinha cinco filhos. As quatro mais velhas eram meninas; e, então, depois de mais de dez anos, veio o menino; já filho da velhice. Crescemos juntos. No quintal deles, tinha tudo que era pé de fruta. Quando era tempo, eu ia lá comer amora, ameixa, manga. Seo Edmir era louco pelo menino. Do nosso bairro, ele foi o primeiro a ter videogame. Crescido, ganhou moto e foi justamente nesta moto que ele.
Tornou-se um rapaz bonito, o filho. Aonde quer que fosse, as meninas disputavam. A gente andava junto. No dia em que morreu, eu devia ter ido, na garupa. Talvez a bala tivesse o endereço da minha própria cabeça. Aconteceu assim: tínhamos combinado de ir a uma cachoeira; mas, no último instante, dei pra trás. Ele foi, só. Quando chegou lá, algumas meninas ficaram encantadas, mas estavam acompanhadas. Pra escapar da confusão, meu amigo veio embora. Houve, no entanto, perseguição e alguém atirou na cabeça; a bala entrou pela parte de trás do capacete.
Eu estava assistindo ao Fantástico quando uma das irmãs veio me dar a notícia. Abraçou-me chorando e eu senti. Tudo isso tem mais de vinte anos. Seo Edmir acalmou um pouco com o tempo, mas jamais se recuperou. Há dias, de manhã, em que estou tomando café na padaria, e ele entra pra comprar pão, e nem me reconhece. Tem o olhar mais triste. E sei que guarda no peito a maior dor do mundo. 🌻

Nenhum comentário: