quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O pai


Essa coisa de ser estranho atrapaia a gente um bocado no começo. Lembro que, uma vez, fui num show da Legião Urbana com meu irmão mais velho e uns amigos. Quando saímos, eles estavam diferentes, emocionados, os semblantes diferentes, um misto de euforia e, ao mesmo tempo, já nostalgia pelo show findado. “Que diacho!  – pensei  - As pessoas normais precisam do show pra sentir isso; eu vivo assim o tempo inteiro!” Antes disso, nos fim dos anos 80, meu pai era cobrador de ônibus da CMTC. Eu tinha uma vontade danada de cuidar dele, de dar presente. Ele tinha uma bolsa de couro parecida com aquela do Patropi, na qual carregava a marmita. Lembro do pai indo trabalhar, achava que ele caminhava meio triste. Ele tinha tido um bom salário como mecânico na Mercedes Benz, do Brasil; mas foi mandado embora por causa das greves do final dos anos 70 e não conseguia mais arranjar um bom emprego. Ficou marcado. Meu pai é daqueles que você quebra o pescoço dele, mas ele não enverga. Estava junto quando fundaram o PT, tomou até rabo de galo com o Lula. A mãe conta que tinha medo de ele ser preso. Sim, voltando, eu ficava olhando meu pai ir trabalhar e achava ele parecido com Dr. David Banner, o incrível Hulk depois que se destransformava. Assim que passava a ira, o herói era um homem comum, com um olhar triste, indo embora. Todo episódio terminava assim e eu via ali o meu pai. Logo que perdeu o emprego por causa da greve, ficou com a carteira suja, como diziam... Então ele, meu velho, ia até o Brás e comprava umas roupas para revender. Não dava muito certo. Ele tomava calotes. Não sabia cobrar as pessoas. Uma vez, foi levar umas costuras que minha mãe pegava pra fazer em casa e, quando voltou, perdeu todo o dinheiro. Nós iríamos comer uns bifes aquele dia. A mãe já estava com tudo preparado. Eu era neném ainda. A mãe me contou tempos depois. Teimoso e atrapalhado, mas que coração! Até hoje tem a mania de querer ajudar os outros. Quando conseguiu comprar um terreno e construir, fez uma edícula nos fundos pro povo que vinha de Minas ir se ajeitando. Ficaram por lá todos os irmãos da minha mãe, um bocado de primos; no total, umas vinte pessoas passaram pela casa ao longo do tempo. Ele nunca cobrou um centavo de ninguém. Uma vez, quando minha mãe estava grávida de mim, o pai pegou um mendigo, deu banho, alimentou e colocou dentro de casa. Pra você ter uma ideia da índole dele. Não é porque é meu pai, não. Ele se chama João, como meu filho, mas o apelido até hoje é Dó, porque tinha dó de todo mundo. Como éramos muito católicos, eu queria ser padre pra dar essa alegria aos meus pais. Talvez fosse esse o melhor presente que eu podia dar; mas, um dia, encontrei uns restos de uma revista pornográfica num terreno baldio e aí danou-se... O corpo perdeu a inocência. Aos domingos, depois do almoço, o pai colocava os discos do Roberto Carlos pra tocar na vitrola e ficava quieto, sentindo, organizando as coisas que andavam dentro dele. Eu ficava por perto observando e sofrendo junto com aquelas canções tão tristes.

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