sábado, 3 de novembro de 2018

E AS CRIANÇAS TRAZEM FLORES NOS CABELOS


canção para os nossos filhos
O mundo desmorona lá fora.
Não há paz na noite incendiada.
Da parte baixa da ampulheta, a areia evapora,
segue solta o caminho de volta.
Em um dia, recuamos cinquenta anos.
Em uma noite, ressuscitamos com carne crua os pterodáctilos.
Agora,
A História se dissolve.
A aula-comunhão é punida.
A Poesia é vigiada.
A Arte é combatida feito crime, menino.
Pelas ruas, coturnos engraxados perseguem os invisíveis
E os mais sensíveis sentem o corpo em carne viva.
Dos bueiros, sobe um cheiro estranho:
um quarto osso, um quarto cadáver;
um quarto medo, um quarto terror.
A tudo aquilo que é belo e bom, os loucos de Cristo respondem com a morte!
(Quando uma ovelha assim se assusta, todo o rebanho morre do coração.)
A tudo aquilo que cuida e crê, o louco eleito responde com a pólvora.
(Quando um lobo assim mostra as presas, toda a alcateia se lança sobre a carne tenra.)
A noite incendiada lambe suas feridas.
Cada estrela, um furo cego no lençol do céu.
Pelas costeletas do fascista - enquanto ele devora um delicado - como se fossem lágrimas do carpinteiro - escorrem gotas coloridas de suor.
Que foi feito de tudo o que disse aquele que andava entre putas e leprosos?
Neste teatro absurdo, não contamos com nenhum Deus ex-machina.
Como um machado, ergo o Amor sobre a cabeça
E desfiro um golpe no coração do meu inimigo.
Do peito dilacerado, brota uma cor avermelhada,
que tinge o céu e as nuvens feito o sol ao amanhecer
no tempo em que ainda existia sol e manhã.

Ao redor do fogo,
Reúno-me aos meus iguais para cantar as cantigas do sal.
E nossas crianças trazem flores nos cabelos.

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