Há em todo luto um aspecto ligado à fidelidade. Quando estamos em luto, não nos permitimos ser felizes; pois, como podemos ser felizes se o ser amado morreu? Temos de morrer um pouco juntos pra provar amor, pra não abandonar aquele que amamos à própria sorte, rumo à Noite. Se uma canção nos faz feliz, trocamos de estação; o ser amado não pode ouvi-la; como podemos nos permitir? O momento agora é de sofrer até o fundo pra estar à altura daquele que desapareceu. O paladar perde o gosto, a pele perde o tato, o olho perde o prazer da cor.
Sofrer por aquele que se foi é um modo de dizer ao morto que ele não está sozinho e que ele, apesar de haver tantos outros, é único: ESPECIAL. E o pior que se pode dizer ao menino que perdeu a gatinha é:
- Não chore, a gente arranja outra. – Ele vai chorar ainda mais, vai se indignar. A outra não é aquela e ele quer ser fiel à que se foi; como poderia trocá-la por outra justo agora, quando ela mais precisa? Sofrer pela gata morta é um modo de mantê-la viva e de acompanhá-la um pouco morte adentro. Na maioria das vezes, somos seres fiéis, só que doidos. Aqui, no lado pobre da cidade, havia uma mulher, esposa do dono da mercearia, que ficava com muitos homens quando o marido era vivo. Ela parecia não ter a menor consideração. O coitado vivia com o chifre inflamado, ouvindo canções do Fagner, do Christian e Ralph. Depois que ele, o marido, morreu, no entanto, ela disparou a frequentar a igreja, tornou-se beata. Terminou todos os casos. Ninguém nunca mais soube de namorico seu. Ao morto ela foi uma esposa fiel como nenhuma outra😱.
A meditação, pra mim, NÃO é um modo de me tornar morno, de ficar indiferente, de já estar morto quando a morte chegar; pelo contrário, é um meio de sentir tudo com mais atenção, com mais plenitude. E se a vida é pra doer, deixa ela doer! Se é pra gozar, deixa ela gozar! Assim, quando a morte vier, vai ficar espantada:
- Está aqui um cabra que vale à pena levar. Ele esteve consciente de tudo o que viveu! – Isso aí é ela quem vai dizer, a Dama-com-cara-de-caveira-levando-uma-foice-numa-mão-e -uma-ampulheta-na-outra.
Provavelmente, meu caixão, neste dia, vai ser pesado e os amigos vão beber à beça e contarão histórias das minhas presepadas: “E daquela vez que ele foi comprar um cabrito e voltou bêbo com um cachorro sarnento!”... "E daquela vez que..." Vou logo dizendo, eu quero é festa.
Mas, se o assunto era luto, por que foi que eu falei de meditação mesmo, hein?
Sofrer por aquele que se foi é um modo de dizer ao morto que ele não está sozinho e que ele, apesar de haver tantos outros, é único: ESPECIAL. E o pior que se pode dizer ao menino que perdeu a gatinha é:
- Não chore, a gente arranja outra. – Ele vai chorar ainda mais, vai se indignar. A outra não é aquela e ele quer ser fiel à que se foi; como poderia trocá-la por outra justo agora, quando ela mais precisa? Sofrer pela gata morta é um modo de mantê-la viva e de acompanhá-la um pouco morte adentro. Na maioria das vezes, somos seres fiéis, só que doidos. Aqui, no lado pobre da cidade, havia uma mulher, esposa do dono da mercearia, que ficava com muitos homens quando o marido era vivo. Ela parecia não ter a menor consideração. O coitado vivia com o chifre inflamado, ouvindo canções do Fagner, do Christian e Ralph. Depois que ele, o marido, morreu, no entanto, ela disparou a frequentar a igreja, tornou-se beata. Terminou todos os casos. Ninguém nunca mais soube de namorico seu. Ao morto ela foi uma esposa fiel como nenhuma outra😱.
A meditação, pra mim, NÃO é um modo de me tornar morno, de ficar indiferente, de já estar morto quando a morte chegar; pelo contrário, é um meio de sentir tudo com mais atenção, com mais plenitude. E se a vida é pra doer, deixa ela doer! Se é pra gozar, deixa ela gozar! Assim, quando a morte vier, vai ficar espantada:
- Está aqui um cabra que vale à pena levar. Ele esteve consciente de tudo o que viveu! – Isso aí é ela quem vai dizer, a Dama-com-cara-de-caveira-levando-uma-foice-numa-mão-e -uma-ampulheta-na-outra.
Provavelmente, meu caixão, neste dia, vai ser pesado e os amigos vão beber à beça e contarão histórias das minhas presepadas: “E daquela vez que ele foi comprar um cabrito e voltou bêbo com um cachorro sarnento!”... "E daquela vez que..." Vou logo dizendo, eu quero é festa.
Mas, se o assunto era luto, por que foi que eu falei de meditação mesmo, hein?
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