terça-feira, 24 de março de 2020

ENFIM

O que faz de um texto um poema é força do Qí que ele concentra. Neste momento, todos tememos a doença, porque estamos parados e nosso cotidiano é organizado de modo a empurrar a morte pra baixo do tapete. Agora, não há para onde fugir. O frio se impõe com o silêncio dos túmulos. Há, no entanto, coisas piores que a morte: arrastar um corpo vivo, mas morto de todos os sentimentos e carente de qualquer sentido; olhar a lua cheia e nada sentir, nada; ver a menina passar e não compor uma canção. Há vida antes da morte? O problema não é morrer, mas a vida que se vive até o desenlace e quem poderia dizer que estava realmente vivo mês passado? Quem poderia se dizer quente, entusiasmado, alegre? Amigável para com a amizade e amoroso para com o amor? Por um trabalho que não nos transforme em engrenagem, parafuso, chave de fenda. Jovem, fiz uma aposta radical: ou a vida seria celebração, ou seria nada. Falhei. Deve haver um meio termo. Que a face de meu irmão não me seja indiferente; que ela me lembre sempre o enigma que é o outro estar aí, existindo, habitando cada feixe de músculos, e moléculas, e átomos de seu corpo. Que a finalidade da vida não seja superar meu irmão, ou meus antepassados; mas louvar as borboletas, a serralha, uma florzinha qualquer sem nome.
E, se você não puder vir comigo, ao menos não me aponte o dedo.
Muito antes da doença, eu já sabia da morte e gostava de ficar em casa, só, em silêncio. Aceitei minha companhia insuportável e caminhei com minha sombra até poder dizer que há muito gozo em ser só; bem como há gozo em estar acompanhado. O problema é estar só no meio dos outros e trazer o outro, que só nos irrita, pra dentro da nossa solidão. Quando não há ninguém por perto, você pode arrancar a máscara e ver seu rosto real no espelho. É belo? Há amor no semblante refletido? Por que essa necessidade estúpida de ter razão? Quando tenho razão, que parte de mim se regozija? No fim, política, arte, competência, igualdade, compaixão, empatia, alteridade podem não ser mais que substantivos, alimentos para uma sombra vaidosa. Retiradas as máscaras, não conseguimos nos encarar, ou suportar o cheiro de carne podre. Quem sabe, depois da peste, eu tire novo diploma, ou troque de carro e continue mentindo. Por que a verdade só se dá a quem tem a coragem de ser humilde. E humildade é parar de representar. Saber-se falho, imperfeito, errante. Mesmo em solidão, a gente continua agindo como se houvesse plateia; sentindo os sentimentos que nos disseram ser louváveis. Não se trata de erguer altar à canalhice, mas viver de acordo com o que se diz e dizer a partir de uma profundidade que dissolve a máscara. Há uma grande mentira por aí, a qual leva do berço ao túmulo sem que o ser humano viva. Ela é alimentada pela família, pela escola, pela universidade, pela tevê, as celebridades, pelas redes sociais.
Enfim.

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