quarta-feira, 11 de março de 2020

MEU MENINO

 (para meu amigo Xavier)
Esse menino sempre deu trabalho. Perdeu a mãe cedo e eu trabalhava dia e noite, no táxi, pra pagar. Naquela época, o que mais tinha era conta, porque eu tinha deixado de beber, só que agora havia de encarar o real. Toda fuga de um problema é a fuga pra dentro de outro maior. Sim. Eu ainda era jovem e como é que ia fazer com um menino de colo? As irmãs me ajudaram muito. Sem elas, não sei o que teria. E aí, um dia, Magdalena entrou no meu táx...i, vindo da noite. Eu tinha mais de quarenta; ela, menos de vinte. O amor quando acontece, a gente esquece mesmo que sofreu. Nessa época, o menino tinha uns oito. Meio que se virava sozinho. Madá tinha uma filha, ainda de colo. Essa menina também virou minha filha, porque pai é quem cria; foi ela quem me deu meu único netinho. O menino e a mulher, no entanto, desde o primeiro minuto, nunca se entenderam. Havia entre eles uma guerra não declarada; feito a guerra que se estabelece entre nosso cão e o gato do vizinho que insiste em se deitar em cima do muro. Pra resumir, Magdalena e eu tivemos uma vida. Trabalhamos. Estudamos no período noturno. Aumentamos a casa. O menino foi ficando. Existindo nos cantos. Ora dormia na fissura da parede; ora embaixo da escada; ora na teia-rede-de-aranha estendida no cantinho da porta. Nunca que trabalhou. Cedo largou da escola. Alegra-se por nada não fazer. Jamais discutiu, mas sempre fez de tudo pra pirraçar. E, quando a gente tenta conversar, ele se cala. Os vizinhos dizem que usa drogas, porque, dizer a verdade, tem semana que nem banho toma. Mas, e o dinheiro? De onde? Pra encurtar; mês passado, depois de mais de trinta anos, Magdalena foi embora. Havia algum tempo que ela fazia de tudo pra ficar longe. Passava férias e feriados com a família, em Prudente. E eu, velho, doente, sem conseguir dobrar o joelho, estou tendo, desde então, de me virar dentro dessa casa que ocupa quarteirão. E aí, ontem, depois de eu ter demorado mais de meia hora pra subir as escadas, gemendo mais que mulher na hora do parto, sentei na cama e chorei. É duro, sabe? Foi nessa hora que meu menino entrou: camisa rasgada, pescoço encardido, aquele cheiro. Tentei secar o rosto; não deu. Ele me ajudou a me ajeitar na cama imensa – quando Madá foi embora, tudo dobrou de tamanho –, depois me cobriu. E, então, passou a mão assim nos meus cabelos e perguntou:
- O senhor vai ficar bem?🌻

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