domingo, 15 de março de 2020

CONSCIÊNCIA

Do mesmo modo que um homem guarda seu rebanho, a Consciência guarda os pensamentos. Ela não é os pensamentos, é o observador. E, por muito, ela, a Consciência, pode andar de olhos fechados; assim como a semente de lótus pode repousar mil anos antes germinar. Ambas precisam de um trauma externo que fissure a casca. É pelas rachaduras que a luz entra. Então, Paulo era guardador de ovelhas e por elas nutria amor, mas suas mãos nunca tremiam no momento do abate. Pelo contrário, era cirúrgico em cada marretada. Parecia mesmo que as ovelhas ansiavam a morte. E o guardador, portanto, não se questionava. Todo mundo comia a carne e se cobria com o grosso pelo durante o inverno. Diferentemente dos porcos, os quais faziam tremendo escândalo, as ovelhas, em confiança a seu pastor, chegavam mesmo a baixar a cabeça para facilitar o trabalho. Doçura, as ovelhas eram dóceis à morte. Como os demais homens de sua terra, Paulo tinha um temor: a resistência. Todos sabiam que se, no momento do abate, o carneiro gritasse, era que a morte do próprio abatedor estava próxima. No trabalho cotidiano, entretanto, olvidava; tudo era maquinaria e oblívio, como o é no mundo inteiro. As pessoas temem o vírus e discutem política, mas todos estão dormindo. Como se chamam aqueles que falam dormindo? Não importa. Naquela manhã, Paulo teria de abater trinta animais; mas, na vigésima nona ovelha, o trauma aconteceu. De um determinado ângulo, como se tivesse acabado de passar por um prisma, a luz do sol percorreu o caminho que ligava o olhar do guardador ao olho da ovelha. E o animal tinha cílios grossos, os quais envolviam sua negra pupila. No meio da manhã que prosseguia, Paulo percebeu-se irmão e viu que o animal também estava nele; ambos aguardavam o mesmo destino. Mesmerismo e telepatia. A ovelha então gritou. Gritou como se entoasse um mantra; como se cantasse uma palavra de outro mundo; como se visse a morte e dissesse em alto e bom som: NÃO!
Paulo descansou a marreta. Já não era capaz de matar. Como alguém podia? Era absurdo. Dali por diante, sabia que teria de falar aos homens de seu tempo e lugar, ainda que isso o levasse a encontrar, alguns anos mais tarde, o mesmo destino que antes trazia aos animais: morrer com uma marretada bem no meio da testa, entre os olhos.🌻

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