sábado, 7 de março de 2020
MEU BLACK POWER - ELA DISSE
Certa vez, ouvi uma menina sobre a força que surgiu dentro dela quando assumiu seu cabelo crespo e o sustentou num imenso Black Power. Um dia na vida, a gente percebe que não pode ser outro. Que para o bem ou para o mal, só podemos arar nosso próprio terreno. Eu também tive meus complexos e quis ser outro. Guardadas as devidas proporções, também fiz chapinha; engomei, sim, as dobras da minha jornada. É que eu me envergonhava das lacunas na minha educação, da minha cultura limitada, do meu amor pela música brega quando Theodor Adorno comentava Beethoven e Wagner. Os pais de todos os escritores que eu lia tinham curso superior, isso lá no começo do século passado ou antes, enquanto meus avós jamais tinham frequentado escola e meu próprio pai fazia supletivo, no período noturno, depois de um dia inteiro de trabalho. No ano em que nasci, um filósofo amigo meu estava na França; eu sequer conheço Franca. Chegou, porém, o dia em que percebi que jamais poderia ser como meu amigo; mas que poderia ser igual a mim mesmo: surgiu daí minha força: a flor em fúria do meu cabelo. Ele conhecia Paris, mas nunca tinha estado num boteco de quebrada. Ele falava grego e alemão, mas desconhecia o significado do verbo ramelar. Ou eu sustentava e escrevia quem eu era, ou seria só mais uma cópia de outra cópia de outra cópia. Em arte, o que parece defeito é nossa força: Vincent van Gogh se deprimia toda vez que tentava pintar como Millet, mas lhe explodiam sóis circulares amarelos, árvores que erguiam seus galhos para o céu. No corpo, este laboratório da criação (ainda não sabemos: o que pode um corpo?), também tive meus traumas: o que não mata engorda, diria Nietzsche, na favela, dando mortal pra trás: eterno retorno. Eu tinha vergonha de usar bermuda. Minhas canelas eram finas e deram origem a muitos apelidos: de galão; pois o peito é largo como um galo de briga; a palito. Até que, um dia, uma menina, depois do amor, beijou minhas pernas e disse: “Elas são as pernas mais lindas que já vi”. Não estou dizendo que meus traumas sejam profundos como os inscritos na carne pelo racismo. É que a gente acolhe a ferida do outro de dentro de nossa própria. E é nas encruzilhadas que ocorre a compreensão. E só há arte e verdade no ser; todo o resto é imitação da vida.
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