quarta-feira, 11 de março de 2020

O SANTISTA

 Todo santo dia era a mesma história. Depois de chegar do trabalho, cansado da responsabilidade e da pressão que existe quando você é piloto de avião, Mengálvio ainda tinha de lavar a louça, o quintal, limpar o ânus da cadelinha com lenço umedecido e passar álcool gel nas patas para que o bicho pudesse se deitar e dormir entre ele e a mulher. Ela, a mulher, era um ser humano muito depressivo e, por conta disso, não trabalhava; passava os dias fumando maconha e assis...tindo televisão. Era feminista também e, portanto, Mengálvio tinha de passar o próprio uniforme e fazer a própria comida ou comer fora. Às vezes, quando estava na rua, ela ligava pedindo que trouxesse um pote de sorvete, chocolate, ou alguma outra guloseima. Em tais momentos, o torcedor do Santos pensava que o egoísmo buscava nomes palatáveis para se olhar no espelho. Pedira à mulher, certa vez, que passasse uma das camisas, pois tinha um voo de madrugada e acordou atrasado; mas a mulher, ele não sabia se por distração, depressão ou pirraça, queimara a camisa. De modo que ele tinha sempre de se virar. Não bastasse a carga diária, havia também a ex-mulher, para a qual deixara todos os bens. Mengálvio ainda nutria certo afeto por ela e, por isto, não foi sem se abalar que voltou para casa aquela noite depois de ter passado a tarde com a ex, conversando. Ela abrira-lhe o coração. Chorara. Estava apaixonada outra vez; mas sofria, pois o amante era casado. Tentara largar o cara várias, não conseguia, contudo, porque o sexo era fenomenal e ela, tal qual adicta, acabava recaindo. O que faço, Mengálvio?
Ao menos era quarta-feira e o Santos jogaria. Ele ainda não tinha ciência, mas melhor seria se não houvesse jogo, porque, naquela noite, o Peixe seria desclassificado depois de perder por três a zero na Vila. Disso, no entanto, Mengálvio só saberia muito tempo depois, na prisão; porque, naquela noite, durante o intervalo do primeiro tempo, a esposa ligou o som no volume máximo, tocando Dartemi un martello, da Rita Pavone e disse:
- Aproveita que tá no intervalo e vai à padaria comprar um pudim de leite condensado pra gente!
Mengálvio fingiu obedecer, só que, em vez de ir à padaria, dirigiu-se à garagem, abriu a caixa de ferramentas e pegou sua marreta de borracheiro, com cabo de enxada e cabeça de mais de doze quilos. Era uma ferramenta e tanto!
Tchuru, tchurá, foi tudo o que os vizinhos ouviram.

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