quarta-feira, 4 de março de 2020

ESQUENTAR OS PÉS

 No ano da graça de 2003, eu era um jovem recém-formado com um diploma embaixo do braço e uma filha pra criar. De modo que dei graças, quando, lá pelo mês de abril, consegui algumas aulas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período noturno. O trabalho com jovens e adultos é bem diferente do trabalho com crianças e adolescentes. Com as crianças, você tem de apagar o incêndio; com os mais velhos, tem de acender a chama. Enquanto os jovens gostavam de discut...ir; para os mais velhos, o importante era a lousa cheia. Foi difícil convencê-los de que a discussão, o debate e o diálogo também eram parte do processo de ensino e aprendizagem. Quando consegui, ao invés de debaterem os temas que eu trazia, os poucos que gostavam de falar – e não sei o porquê; mas, geralmente, eram as mulheres – preferiam trazer os dramas mais próximos, de suas vidas cotidianas mesmo. Meu trabalho então consistia em tentar enxergar junto a eles de que modo os problemas mais domésticos se conectavam às questões políticas, linguísticas, éticas, estéticas e etc e tals.
Em uma das salas, estudava um casalzinho evangélico. Ambos já tinham passado dos sessenta, filhos casados, e agora decidiam estudar para, sobretudo, compreender melhor a Bíblia Sagrada. Seu Vicente, o marido, era quieto, desconfiado, reservado; já a esposa, Dona Marialice, era sua antípoda. Tal qual as crianças da primeira série, ela encostava sua carteira à minha assim que eu entrava e danava a falar. Às vezes, descia a lenha no marido que, como nota de repúdio, resmungava apenas: “Ê, Maria, deixa o professor trabalhar! Diacho de tanto falar da nossa vida pros zãozotros!” Mas ela não ligava, faceira e serelepe; menina, vocês sabem.
Ocorre que, um dia, Dona Marialice disse a respeito do marido a coisa mais linda que já ouvi. Tagarelando, ela soltou:
- O senhor sabe, professor, que Vicente é amuado assim, brabo, sério; mas é um homem danado de bom? Sim, ele sempre me deixa esquentar os pés nele, porque ele tem as pernas quentinhas, sabe? E, mesmo quando a gente tá brigado, não interessa o tamanho da briga, eu durmo sempre com os pés no meio das pernas dele.
Fiquei pensando que aquela era a melhor definição de amor que eu já ouvira. Quando você ama alguém, não importa mesmo o tamanho da confusão, ou do frio, você sempre deixa a pessoa esquentar os pés em você quando anoitece.

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