quarta-feira, 4 de março de 2020

BAYGON

 Nenhum animal, nem mesmo o gambá, é capaz de cheirar tão mal quanto o ser humano; mas o Fanho não era dos piores, embora estivesse há mais de cinco anos sem tomar banho. Desde que decidira morar na rua, talvez em virtude dos traumas decorrentes da fanhofobia, abstivera sua pele do contato com a água. Só que, neste dia 26 de janeiro, estava tão quente que até mesmo ele desejou um bom banho. O cheiro: fezes velhas, urina, ovo podre, tabaco, álcool, colchão, suor, jabá, cebola. Rio. Quarenta graus. Não gostava de incomodar os comerciantes. Havia, no entanto, mais de dois dias que as moscas, centenas, perseguiam-no. De modo que o mendigo entrou no Carrefour, caminhou até o setor de limpeza, dirigiu-se à prateleira dos aerosóis, pegou um Baygon e, sorrindo, borrifou-o inteiro nas moscas ao redor.

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