quarta-feira, 4 de março de 2020
BOLSONARO É NOSSA SOMBRA NO PODER
Semana passada o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse que Bolsonaro era a soma de nossos erros. Meio mundo se apressou em dizer que o erro era dele mesmo, Maia, ou de outro qualquer, pois não tinham votado no Messias. O erro é sempre do outro, mas errar é muito mais que simplesmente apertar alguns botões no dia das eleições. Erramos ao revidar na mesma moeda. Olho por olho. Preferimos o combate ao convencimento. E o presidente não é a soma dos nossos erros, mas a sombra. A esquerda se tornou tão moralista quanto a direita. Moralismo não se refere só ao âmbito sexual. Moralista é aquele que se assenta sobre uma moral qualquer e de lá aponta seu dedo cumprido e pontiagudo aos demais; como se fosse, sob algum ponto de vista, melhor – moralmente. O fato é que perdemos as eleições, e vamos continuar perdendo, porque nos tornamos mestres em apontar o dedo. Você não pode dizer isso! Você não pode dizer aquilo! Tal palavra está proibida! Abaixo às touradas e ao churrasco! Como qualquer moralista, cagamos regras e aqueles que têm o dedo apontado para si, revoltam-se. Não estou dizendo aqui que todos devemos ser racistas, homofóbicos, ogros ou coisa que o valha. O que me pergunto é: o que fazemos com a nossa sombra? Ou, melhor, com nossa sombra coletiva? Reprimi-la não faz com que ela desapareça; pelo contrário, é na penumbra que ela grassa. Talvez precisássemos parar de mentir. Não uns para os outros, mas cada um diante do próprio espelho. Não somos seres só bonzinhos. Eu sei, é chato para a autoimagem e pode até acarretar depressão, mas o que a sombra quer é ser reconhecida. Ela quer se expressar, integrar-se, sair do subsolo, a sombra é a minoria da totalidade do ser. A arte pode ser um caminho, a jardinagem outro, a meditação – que opera para além dos limites do ego-sombra - funciona, os esportes competitivos podem ser uma terceira via. Educação, sempre. Mas como dar um canal ao mal que reside em nós, se preferimos as postagens bem boazinhas de Facebook e, o pior, acreditamos nelas? Queremos matar o outro motorista no trânsito, mas consideramo-nos bons, pois o outro é que fez a barberagem. Nós? Anjinhos veganos de esquerda. O mal não está encarcerado em meia dúzia de psicopatas; fosse assim, seria fácil e não teríamos o presidente que temos. O mal está em tudo e em todos o tempo todo, lambuzado também de bondade. O nosso problema não é político, mas psicológico. E a questão é: O QUE FAZER COM A SOMBRA? Quando conseguirmos dar curso a tal energia e fazer dela algo construtivo, teremos resolvido metade dos problemas que nos assolam neste momento. Enquanto não soubermos o que fazer com nosso Mr Hyde, o nosso Dr Jekyll terá um destino sombrio; pois o que estamos vendo no poder, neste exato momento, é o contra-ataque da sombra: BolsoHyde, versão do Bolsodória, o que há de mais primitivo (a selvageria dos homens das cavernas), vil, inescrupuloso; em outras palavras, o que há de mal em nós, tomando as rédeas do país. Não é um espetáculo bonito de se ver.
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