terça-feira, 3 de março de 2020

APENAS SERES HUMANOS

O Rosa diz pela boca de Riobaldo: “Deus é paciência. O contrário é o Diabo”. E eu digo: sim, por certo. Jesus foi um tremendo pedagogo; Buda também e mesmo o lacônico Laozi; mas, aqui, fico com o Cristo. Ensinar exige paciência e o Mestre não media esforços para dizer de outro modo, tentar um método alternativo, experimentar novo caminho. Neste sentido, era pura paciência; mas, como homem que também foi, experimentou a ira e o que Jesus de Nazaré mais odiava era a hipocrisia. Houve o episódio dos mercadores do templo; mas houve outros também, nos quais o método pedagógico foi a patada: sempre que aparecia um fariseu aporrinhando, com uma pergunta que nada tinha de vontade de saber, levava uma. Estou dizendo isso tudo para chegar à afirmação: amor não é a ausência de ira; é a ausência de julgamento. Cristo irou-se; mas não julgou, pelo contrário, tinha horror aos juízes, aos moralistas, àqueles que se assentam sobre uma moral e de lá apontam o dedo. Neste sentido, a reportagem do Dr. Dráuzio sobre a vida das mulheres trans nos presídios lembrou-me uma passagem do Evangelho. Segundo a lei da época, a mulher adúltera devia ser apedrejada até a morte. E, então, surgiram os canalhas fazendo emboscada. Sem que o Mestre se preparasse para a defesa – os pensamentos vêm de outro lugar – os homens de bem da época prepararam a armadilha e perguntaram: o que fazer? Sorriram, dessa Ele não tinha como escapar: ou aprovava o apedrejamento, ou estaria também contra a lei. Jesus agachou-se por uns momentos e escreveu na areia. O quê? Não sabemos. Quando, por fim, colocou-se de pé, disse com a autoridade do amor:
- Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra. – O chão tremeu, o céu se abriu, as hienas se afastaram.
O Dr. Dráuzio, a gente sabe, é ateu, mas faz trabalhos voluntários nos presídios há trinta anos e, o que é maior, sem o interesse de querer impor sua verdade. Aquelas mulheres são as renegadas dentre as renegadas; pois, mesmo dentro da cadeia, não têm lugar e, paradoxalmente, é só na cadeia que podem ser quem são. Quando não cabemos na lei, o caminho que se abre é fora da lei. Na reportagem, sensível, vemos que doentes, rejeitadas, abandonadas, foi entre a marginália, muito mais que entre os cidadãos de bem, que elas encontraram algum tipo de ternura humana. E não são vermes, baratas, ou animais peçonhentos, gente! São apenas seres humanos, como todos nós, todo o resto é bobagem, hipocrisia, ou canalhice. Ou você está do lado dos que acolhem, ou do lado dos que apedrejam.🌻

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