quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
SAPATO VELHO
Prosseguir é retornar. Naquele dia, os filhos tinham discutido na frente deles. Nenhum dos dois tinha tempo ou disponibilidade. Não eram maus é que a vida moderna: trabalho, filhos, contas, impostos, casas, dívidas, dúvidas, cônjuges. Não, não eram maus filhos, pelo contrário. A sociedade, no entanto, era disposta de tal forma que não havia espaço para. Havia muito, era o Google o depositário da sabedoria e os anciãos já não. Ambos tinham mais de oitenta e, se ele sofria de Parkinson, o diagnóstico dela era Alzheimer. Ele se sabia velho, seu corpo se tremia inteiro e, durante a noite, quando conseguia dormir um pouco, era a tosse que o despertava para uma madrugada de horror. Ela, aos poucos se apagava, feito sol de fim de tarde e era muito, muito doloroso testemunhar aquele poente; de modo que, para ele, ela não tinha envelhecido. Olhava e ainda via a mesma mocinha de sessenta anos antes. O espelho, por outro lado, lhe dizia que o tempo. O sentimento que grassava no peito não era orgulho, mas dignidade, e amor, e cuidado, e empatia e uma delicadeza sem par neste mundo de automatismos. De modo algum queria que os filhos se sentissem culpados. Não havia, entretanto, outro caminho. O suicídio também pode ser um gesto afirmativo da vida. Algo assim escrito em bilhete: “Vivemos até o fim, sugamos o néctar enquanto houve vida. Agora podemos morrer como vivemos, plenamente.” E, então ele, muito lentamente, preparou a sopa e diluiu em meio ao caldo as pastilhas que havia algum tempo comprara pressentindo este momento. Alimentou-se como pôde e ajudou sua namoradinha a se alimentar do mesmo modo. Depois do jantar, penteou os cabelos dela que ele via negros, embora estivessem. Colocou, em seguida, um par de meias nos pés dela e nos próprios. Desde os anos cinquenta, verão ou inverno, ela sempre dormia de meias. Estendeu, por fim, seu corpo trêmulo ao lado, abraçou-a e cantarolou: “você lembra, lembra, eu costumava andar...” E ela sorriu. E, no guarda-roupas, dormiam tanto o vestido, quanto o sapato velho que ela calçara no dia do casamento.
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