quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ASTRONAUTA APOSENTADO

Sabe o que admiro nas mulheres? A capacidade que elas têm de demonstrar afeto umas pelas outras sem a necessidade de estarem ébrias. Os homens precisam ao menos do álcool pra romper a barreira. Meninos são treinados assim. É por isso que, muitas vezes, a gente encontra um amigo que ama; mas não diz que ama, diz que o considera. E, logo que dois amigos assim se encontram, ficam sem saber o que fazer. O jeito então é quebrar uma pra engrenar o papo; o que, no fim das contas, pode acabar em vexame. Por muito tempo, nunca superei nada, adormeci tudo; mas, por baixo da casquinha, o pus proliferava, a coisa inflamava e, quanto mais inflamava, mais eu precisava de analgésicos, até que construí transporte e me tornei astronauta: Major Lopez, distante milhares de quilômetros da Terra, de onde nada me chegava além de ecos. E, na segunda-feira, perguntavam-me: você viu o avião que caiu? Assistiu ao jogo? Ao debate político? Eu não sabia de nada. Tinha estado longe. Preferira o princípio de prazer ao princípio de realidade. Naqueles últimos anos, estive completamente só, na minha nave, no meu mundo. Até que a nave despencou do espaço e o impacto da queda quase; mas, como disse Nietzsche: “o que não mata engorda”. Não, isso são os meninos que dizem quando pegam doce do chão. A frase é: “o que não mata fortalece”. Ou ao menos faz continuar. Que seja! Ao tomar por maestro o girassol, virei o rosto em direção à luz. Ainda anoitece, é claro. E, no inverno, as noites são mais longas. Acontece que, agora, estou certo das manhãs. E observo, extasiado, os feixes de luz brilharem de encontro à superfície de metal da minha nave em ruínas.

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