quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O OLHAR DE MEU PAI PELOS MÓVEIS DA CASA

Eu era a filha louca e pouco tempo antes recebêramos a notícia de que meu pai estava com os dias contados. Eu não tinha quarenta anos e já passara por três divórcios e o quarto casamento também não andava muito bem. Era bruxa, maconheira, macumbeira, pombagira; ao passo que toda a família era evangélica. Meu marido tinha tido um filho com outra alguns meses antes e meu coração oscilava entre dois sentimentos: o ódio e o vazio. O ódio que eu sentia era tão grande que não cabia mais só na trilha que levava até meu marido, sua amante e o bastardinho. Eu odiava a humanidade inteira; mas, principalmente, o gênero masculino. Tinha até me cadastrado num site para me vender a homens que quisessem apanhar, ser submissos, lamber as botas de uma Dominadora. Quanto ao vazio, ele é o sentimento que irmana o suicida ao psicopata. Foi nestas circunstâncias que soube da notícia e minha mãe ligou dizendo: “Ele quer te visitar.” Naquele dia, limpei a casa inteira. Troquei tapetes, cortinas e lençóis. Em certos momentos, eu ia lavar o pano de chão e me diluía em lágrimas junto à água que despencava da torneira.
“Hoje não brigamos” - disse ao meu marido.
Os velhos vieram. Beberam café e comeram bolo. Leram a Bíblia.
Pouco antes de partir, meu pai correu os olhos pelos móveis da casa e sorriu. Havia tanta ternura em seu rosto. Todas as brigas, as surras, os desentendimentos tinham ficado para trás. Li os pensamentos dele: “Estou contente que tenha tomado juízo, minha filha. Eu te amo. E sempre tive orgulho de você. Você é a filha que mais se parece comigo. Aquela cujo temperamento em nada difere do meu” – e então o velho me abraçou e, por alguns instantes, tive tanta vontade de ter sido outra, quem sabe mais maleável; mas não podia fugir do que era. E ele, meu único pai, era um homem bom que estava morrendo. Severo, duro, doutrinador; mas muito, muito bom.
Menos de um mês depois, ele.🌻

Nenhum comentário: