quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

SOBRE BACURAU

Bacurau é uma alegoria tosca; mas isso não é defeito, pelo contrário: vem daí sua força. A alegoria é um braço da metáfora mais ligado à moral e arte e moralidade não combinam. Mesmo que não exista o parágrafo final com a inscrição: moral da história; na alegoria, subentende-se tal sentença. Ela, a alegoria, é ligada à fábula e, quando acontece, conecta-se facilmente o significante ao significado; não tem erro; é o momento em que a linguagem conotativa está mais próxima da denotativa. Em Bacurau, o enredo é uma alegoria do momento político atual. Em arte, prefiro outro ramo da metáfora: o non-sense, bastante explorado pelos surrealistas e por gente como Kafka, ou, no cine, David Lynch. Encontramos aí o absurdo, o irreconhecível e o significante pode conectar-se a múltiplos significados. A linguagem artística é a linguagem condensada e carregada à enésima potência. No caso de Bacurau, por outro lado, a mensagem tem um desespero e um vigor muito mais ligado ao político que ao estético e, em verdade, o desleixo estético também é um manifesto estético, como no caso do Punk. Um Madmax no sertão pernambucano não poderia soar como a nouvelle vague.
Outro ponto que chama a atenção é o pastiche, recurso usado à exaustão e com maestria por Tarantino. Em Bacurau, percebe-se o tempo todo o diálogo com outras obras: dos discos voadores toscos de Ed Wood à pílula de realidade de Matrix. Como desde o primeiro modernismo, passando pela tropicália, nossa tradição é identificada conceitualmente à antropofagia, creio que isso também é uma nota positiva no contexto geral da película. O Kleber Mendonça não recorta e cola, mas engole, deglute e defeca algo diferente, original em certo sentido; assim como o mangue beat também fez.
Como professor, gostei do momento em que o prefeito descarrega um caminhão de livros no meio da cidade. Não é outra coisa o que os governos, mesmo de gestões de esquerda, fazem há algum tempo. Incentivar a leitura não é só despejar livros.
Pra encerrar, reafirmo que Bacurau é um bom filme e, grande parte das críticas que ouvi em relação, referem-se ao pouco refinamento estético. Negócio é o seguinte: pobre não tem etiqueta, não enfeita o prato pra comer. O feio é o belo às avessas. No final dos anos setenta, por não ter instrumento de sopro, um jovem brincou com uma vitrola encontrada no lixo e nasceu o hip hop. Uma coisa não exclui a outra: pode-se muito bem gostar de O cidadão Kane e de Bacurau; do mesmo modo como gosto de Bach e dos Ramones.
Abaixo às cercas embandeiradas que separam quintais.

Nenhum comentário: