quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

KURT COBAIN/PAULO FREIRE; OU CONHECIMENTO E SUPERIORIDADE

Essa semana o colunista da Folha Joel Pinheiro viralizou ao perguntar nas redes sociais se haveria show do Nirvana no Brasil. Tudo bem, forçou um pouco e rir bem que é bom; mas esse episódio trouxe à tona uma questão que me incomoda: o acúmulo de informação como forma de se sentir superior. Não difere do cara que compra carrão ou iate pelo mesmo motivo. Alguns acumulam bens materiais, outros. E tem gente que está sempre relendo; não se permite dizer que está entrando em contato com a obra de algum autor pela primeira vez. No fim das contas, quando sei algo que o outro não sabe, sinto-me um pouquinho mais inteligente, melhor, superior: é o tal do ego - sempre. Só que ninguém sabe tudo o tempo inteiro. Todos estamos aprendendo e o cara que conhece tudo de Bartók provavelmente não vai saber quem é Túlio Milionário; bem como o cara que conhece Nirvana pode não ter ouvido falar de Mischa Maisky. A vida em sociedade valora o conhecimento; mas não há um conhecimento “melhor” que o outro, há conhecimentos diferentes. Foi o que Paulo Freire, humildemente, constatou ao trabalhar com alfabetização de adultos. Ao mesmo tempo em que ensinava, o educador também aprendia e o processo de ensino-aprendizagem era aí concebido como uma relação entre sujeitos; bem diferente da educação bancária; na qual um mestre, que detinha o conhecimento superior, depositava tal conhecimento nos alunos; num processo no qual o professor era sujeito e o aluno o objeto. Acho que a saída deste mato sem cachorro no qual nos metemos não passa pela dicotomia diretira/esquerda, mas pelo cultivo em cada um da humildade. Só uma humildade radical pode nos tirar dessa enrascada. O mestre enfrentou o sistema e, ainda assim, lavou os pés de seus discípulos. By the way, o colunista conhece Leadbelly; e você que fez piada? Conhece?

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