quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O OLHAR DO OUTRO



Duas pessoas com as quais convivo e pelas quais nutro imenso afeto disseram, recentemente, coisas semelhantes a meu respeito. Uma delas disse: “Você se acha melhor que os outros”. E a outra: “Não vai se achando a última bolachinha do pacote”. Acusei o golpe. Como assim? um menino tão bom😱! Há no ser um vapor que embaça o espelho; o qual é chamado, o vapor, no popular, de ego. Aqui não é o ego da psicanálise. O primeiro ímpeto que a gente sente quando recebe críticas assim é se defender; o que é errado, porque as críticas não são endereçadas à totalidade de nosso ser, mas a um de nossos muitos defeitos de caráter. Como seres humanos, todos temos qualidades e defeitos e podemos nos tornar melhores se observarmos o que em nós não é motivo de alegria. Não sou advogado do meu ego ou dos meus defeitos, pelo contrário. Também já não faço como antes, quando tentava justificar meus defeitos apontando as falhas do outro; o que, inevitavelmente, gerava discussão. Hoje, é difícil, mas eu tento acolher críticas assim e mudar. Sim, porque todos estamos o tempo todo mudando, mesmo que permaneçamos os mesmos. Nada é pelo outro, tudo o que tento melhorar é para que eu mesmo sofra menos. Ainda sinto vontade de pedir desculpas por mancadas que dei há vinte anos; mesmo que aquele cara já não exista objetivamente. Por um ou dois dias, parei, pensando nessas críticas, e observei minha travessia até o presente e, de fato, há em mim uma coisa horrorosa: a tendência ao autoelogio. O elogio é sempre do outro; quando a nós nos voltamos é vaidade: o horror. Investiguei as causas e não foi preciso ser um Sherlock Holmes para perceber que este meu comportamento é fruto de uma tremenda insegurança, de um complexo de inferioridade, como se diz por aí. Eu nunca sei se o que fiz foi bom. Acho que qualquer outro poderia ter feito melhor. E aí, espero o elogio e, quando ele não vem, eu mesmo o faço na esperança de que o outro confirme e eu me sinta um pouco melhor. Vou dar um exemplo: hoje não, mas quando era mais novo, era puro ciúme. No fundo, não achava merecer o afeto de uma pessoa que admirava. Por outro lado, pensava: é tudo uma grande coincidência, sou eu aqui, mas podia ser qualquer outro. Eu não sou especial. Caso eu não existisse, o mundo continuaria do mesmo modo. Hoje dou risada; mas, quando você tem dezesseis anos, um pensamento assim fere fundo. Eu não sei como resolver estes meus defeitos. Acho que reconhecê-los e estar atento já é um começo. Depois, o que faço é observá-los e colocá-los no sopro, durante a meditação. Você não precisa crer em Deus ou algo assim; mas tem de reconhecer que vivemos dependurados no Mistério. Há algo vedado lá no fundo. O ar que respiramos, por outro lado, é um presente-milagre que não valorizamos. Bastava faltar oxigênio e a vida se dissiparia. É um exercício de humildade, perceber-se menor que uma lufada e, quando coloco as falhas que percebo em mim no sopro, elas, aos poucos, perdem poder. Melhorar é coisa demorada. Tarefa de uma vida inteira. Enquanto isso, ouço Beatles🌻

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