quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

MESMO DE BRINCADEIRA

Sabe o que eu vejo por trás da ira, do egoísmo, da manipulação, da inveja, da violência, da esquizofrenia de olhos azuis, do modo como os homens e mulheres que têm alma me olham, do meu próprio medo? Dor. Tirando toda a tralha, peneirando o excremento, jogando fora o resíduo denso do disfarce: a dor da criança para a qual os pais deram as costas; a dor do cão que, ao lamber a mão do dono, foi esbofeteado. Há um espinho de peixe atravessado na garganta de todo vilão. Iago não sofria menos que Otelo e Edmundo é uma Cordélia sem sapato de princesa. Deus detesta aquele cuja fé não vacila, pois não passa de um puxa-saco travestido de humilde; e quem pode amar um lambe-botas? Nem Javé em sua infinita misericórdia. Ainda não confio naqueles cujos espíritos não oscilam e farejo em cada gesto a mentira da paz forçada. Não nego o semblante verdadeiro e pacífico de um Cristo, um Laozi, um Buda; mas são raros e não os vejo nos programas de televisão. Sinto tanta pena! Meu coração é um orfanato criminalmente incendiado e as crianças estão todas dentro, trancafiadas. Meu coração é o asilo onde o ser, ainda vivo, fede a mofo e flor de plástico; onde o amor entra em putrefação enquanto respira. Eu amo a Deus, mas será que Deus ama os homens? Sei que quem ama educa, mas as moderníssimas escolas pedagógicas não creem no castigo como método. E é cada cipoada que a gente leva no lombo toda vez que, sem perceber, transgride a Lei. E tudo isso, irmã, tenho suportado calado, tentando enxergar qual é a lição escondida em cada decepção. Não se pode culpar alguém por não vencer, só por não tentar e eu tenho tentado tanto... Tenho passado meus dias em silêncio, enquanto cada inspiração é uma pedra no rim, um parto de criança cabeçuda. Queria te mostrar; mas, como o silêncio não pode ser dito, lanço mão de mil artimanhas para torná-lo presente. E isto aqui não é literatura, essa puta velha bem maquiada, essa cadela do bom gosto e do requinte. Não, isso é uma súplica, um pedido, uma prece ajoelhada lançada por uma boca salgada de lágrimas nos ouvidos do Enigma: Senhor, Senhor, ou me mata ou tende misericórdia! Se eu pudesse mostrar-lhes os meus ontens, as minhas noites em vigília, o modo como continuo caminhando entre meus iguais com o coração desmoronando. Se fosse só minha dor que me doesse, seria tão fácil; mas fui nascido com uma alma sem contorno e, se vejo um cão abandonado, é em minha pele que a sarna se instala; se vejo um menino de rua, é meu corpo que fede a carniça e indiferença; se observo a boca anciã que já não consegue mastigar, é meu estômago que não digere a desgraça dessa vida. E se alimento o cão, dou cem reais ao menor abandonado e preparo a sopa da terceira idade em farrapos isso não disfarça ou diminui a ferroada da impotência. Viver é se equilibrar no absurdo.
Será que o mundo foi tomado? Será o universo um malvado demiurgo? Ferida que vira as bordas ao contrário para devorar a si mesma?
Hoje é domingo, vou levar meu filho ao parque e tentar ensiná-lo a ser um bom homem. Vamos almoçar juntos e tomar sorvete. Vamos nos perder entre homens e mulheres sonâmbulos: elas - sempre puras, inocentes e injustiçadas - culpam seus maridos pela mediocridade; eles culpam-nas porque não podem saltar o fracasso. Seria cômico, não fosse terrivelmente. Mais tarde vou preparar o leite com Toddy - porque meu menino não gosta de Nescau - e levar na cama com tudo o que me sobrou de bom. Eu não sei como salvá-lo e minha fé foi passear de montanha-russa. Não pensem que sou mau ou niilista, tudo o que me dilacera é por excesso de amor. “Que vontade de ter, de querer te abraçar, de correr pela areia”.🌻

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