quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
MEIA-IDADE
Menina, olhando em retrospectiva, parece que foi ontem: você dorme com dezoito e acorda com quarenta; só que não. Muitas coisas rolaram: casamentos, filhos, empregos. Quer saber de uma coisa? Em todas as vezes que esquentei a cabeça, em cada uma das noites de insônia, por mais que eu tenha uma imaginação porreta, jamais vislumbrei o futuro que se tornou presente. Então, você que é jovem, relaxe e respire, você está no lugar certo e nada está sob controle. Não quero com isso dizer que tudo vai acontecer de acordo com seu sonho e que basta você desejar e todo o universo vai se movimentar e tals. Comigo foi bem o contrário e, quer saber, dou graças! O que eu queria não era o que me tornaria um ser humano melhor. O que é um ser humano melhor? É bem simples: aquele que se sabe parte. Parte de uma comunidade na qual você tem de atuar sem querer mandar, parte da raça humana, parte – muito idiossincrática – da espécie animal, parte de um planeta que a gente tem de cuidar; porque nossa vida acaba, mas o mundo não e as crianças confiam tanto! O sistema econômico vigente tem de alimentar nosso ego, pois sem o ego e sem os desejos, ele morre. Então é preciso alimentar a ideia de que somos mais bonitos, melhores, mais sábios; enfim, a última bolachinha do pacote. A vida assim não é uma celebração, mas uma competição, na qual só os vencedores têm direito a celebrar. Eu queria ser um astro do rock, sabe? Viver loucamente e morrer jovem. Não rolou. Quis ser um escritor reconhecido. Não rolou. Fui ficando humilde. Desejei ao menos viver da minha pena; tampouco. Eu, cada vez menor e menor até caber no meu destino que é ser professor de uma escola no bairro onde nasci. Para o ego foi uma surra; mas ainda posso cantar com os amigos, se quiser, e nada me impede de escrever diariamente. Quando deixa de se comparar com os outros, de querer ser mais, a gente se percebe único e daí vem uma dignidade que não é do ego. Você se sabe singular, mas não especial e é só de mãos dadas que funcionamos, porque nenhum ser humano é autossuficiente. Um cozinha bem, outra escreve, outro assenta tijolos. Só junto, em comunidade, que a gente beira a perfeição; pois o que falta em um ser humano, sobra no outro. Na prática da vida, não há um saber melhor que o outro; pois, para que o Doutor faça sua palestra, é preciso que as faxineiras limpem a sala, e que uma porção de pedreiros tenham assentado os tijolos, e que um técnico tenha ajeitado o som. Como no milagre dos peixes, cada um dá o pouco que tem e nada falta. No fim das contas, todo mundo devia ser aplaudido de pé. Sim, o meio da vida parece chegar de repente. Solte as rédeas e procure agir de acordo com; pra saber o quê, exercite o silêncio. Coisas muito boas acontecem sempre. Eu, por exemplo, não fiquei careca – ainda.😉
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