Certa manhã, G. acordou cedo e se sentiu muito só. Ao tentar jogar a coberta para o lado, notou que ela parecia uma chapa de metal. Por toda a vida, tivera intensas variações de humor; naquela manhã, contudo, a sensação de culpa, e perda, e dor, e ciúme, e autopiedade, e angústia; em outras palavras, confusão, era muito maior. Lentamente - a coluna curva como tivesse noventa anos, embora acabasse de chegar aos quarenta – escovou os dentes, separou a louça suja na pia e começou a lavá-la. No fundo, preferia estar morto. Matar-se, no entanto, também era trabalhoso e ele pensou nos filhos, nos pais, nas mulheres que amava, em seus cães, amigos e flores. E se fosse o contrário? Já não tinha direito. Todos estamos espalhados. O jeito era coar um café forte e continuar. No quintal, os cães latiam brincalhões, felizes que o dono tinha acordado. Sempre há anjos. Ele colocou ração e água. Lá fora, no mundo grande, a ganância e a injustiça prosseguiam. Lá fora, todo mundo reivindicava alguma coisa. Chorou, andava muito ultimamente: qualquer beijo de novela, qualquer tragédia de noticiário. Tanta dor sem pássaro! Tanta pobreza sem sombra! A falta até de pão. Como era verão, as pessoas exigiam gelo, ninguém, porém, se dispunha a encher as forminhas. Os bichos é que sabiam doar, sem espera. E, sem exigir, também recebiam. Eram alimentados; tinham sempre água fresca na tigela; o cocô era retirado e o quintal lavado diariamente. Quando G. os banhava, nos dias mais quentes, massageava as barrigas... Não se pode exigir amor. O amor é sempre doação. Para G., as manhãs eram sempre piores, depois o dia engrenava; mas, naquela, ao ligar a mangueira para limpar a sujeira dos bichos, percebeu um arco-íris se formar sobre o feixe. Aos poucos, as cores espalharam-se pelo ar. Deus não manda telegrama. Como se lhe fora revelada, G. viu a verdade de todas as coisas e tudo era tão bonito! E a beleza incutia nele a vontade de ser bom; de sair à rua e perguntar às pessoas o que elas estavam precisando. Viu os cães por dentro e eles não eram feitos de órgãos, mas de cores e energia. Havia agora em seus olhos uma espécie sonar. De um presente ao outro, as formas dissolveram-se. Ainda havia contornos; mas, como no quadros de Vincent, era preciso estabelecê-los na marra, com uma linha grossa. Nada era isolado. Todas as coisas eram vivas e tocavam o cerne umas das outras, como se não houvesse mais pele. A dança que ele via não era dos átomos, era mais profunda; mais profunda que a valsa dos elétrons, mais profunda que o samba das energias. Como que carregada por uma mão invisível, a angústia partiu. Tudo se fez leve. As vértebras corrigiram-se edificadas de baixo para cima por uma coluna de ar. Os cães sorriram e, como numa nova manhã dentro da outra, o sol deu a graça de seu poder. Ainda trêmulo, trôpego, lívido, G. agradeceu e, voltando a face aos céus, pôde apenas murmurar:
- Misericórdia... Misericórdia...
E as lágrimas que atravessaram o rosto já não eram de tristeza, mas de alegria e de uma certeza que não mora neste mundo. Por trás das formas individuais, tudo era tão belo e ele sabia que não teria de carregar o peso de seu eu por toda a eternidade. Quando chegasse a hora, seria tão bom partir, para que outros.🌻
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
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