quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

SOBRE A DIFERENÇA ENTRE O SÁBIO E O POETA



De repente, no momento de crise, o um se faz dois: o que sofre e o que observa. Esse outro que observa é a cura, porque ele ainda sou eu e, aqui, vou chamá-lo de Senhor. O Senhor poderia rir de tudo; dos sofrimentos, da comédia, do cair e levantar, da confusão do outro Daniel: mundano, pai, trabalhador, adúltero, piadista; o que atua, enfim, historicamente, imerso no seu tempo. As agruras desse outro Daniel são como um filme para o Senhor. Quando estou no Senhor, não sofro porque ele é imutável, inatingível, atemporal. Ele é vazio, silêncio, paz, mistério, leveza. O grande problema é que a criação poética só surge quando o Senhor passa por dentro da fissura do outro Daniel: o maior atravessando o menor, a divindade que se faz carne e se torna trôpega, cambaleante, ébria. Deus não escreve poemas, o poema nasce do entre; da condição de se ter tanto tripas quanto coração. Aí está toda diferença entre o sábio e o poeta. O poeta escolhe voltar, sua essência é compaixão. Quando tomei ayahuasca, o espírito da planta me disse que só viera confirmar uma coisa: as pessoas precisavam dela pra alcançar o estado de poesia, ao passo que eu me movimentava nele todo o tempo: no espanto que sinto ao ver uma flor desabrochar e que me dá vontade de parar o momento, esbofetear as pessoas para tirá-las do automatismo e perceberem o êxtase que é existir; e eu choro, e canto, danço, e dou risada, e fico quieto, sozinho, no meu jardim. Em verdade vos digo que nenhuma substância exterior é necessária para alcançar a compreensão. É tanto milagre que eu nem sei por onde começar a ficar boquiaberto. E FELIZ🌻.

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