quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

PRAÇA DA SÉ

O bêbado chamava-se Francisco. Havia mais de dez anos, quando tinha por volta de cinquenta, abandonara mulher com quatro filhas e foi viver nas ruas. Anos atrás, tinha sido homem: trabalhara, construira casa, estivera ao lado da mulher, segurando sua mão, no momento dos partos; agora, era um bêbado, como todos os outros bêbados do centro. Já não sabia se tinha começado a beber por conta de toda aquela culpa, ou se sentia culpado por beber tanto. Os últimos dez anos eram um bloco indiscernível, no qual bebia para dormir e acordava para beber. E, no entanto, lá no centro, no cerne, no meio no coração dele, havia ainda tanto amor! Tanta vontade de se doar ao mundo, de ajudar seu semelhante, o calor da centelha divina; mas a bebida. Havia um cão-companheiro que, certa vez, recebera spray de pimenta nos olhos por tentar defendê-lo. Era tudo.
Na manhã em que a coisa aconteceu, Francisco já tinha dado algumas beiçadas no corote de um amigo. Fazia sol depois de uma semana inteira de chuva. Sem entender direito, olhou para o alto das escadarias da catedral e viu o circo armado: o homem com o revólver apontado para a cabeça da moça; a gente da tevê; a gritaria; os policiais ao redor. Todos somos feitos de luz e sombras. Sorrateiro, vivido, malandro velho das ruas, Francisco subiu como quem não queria, pela lateral, enquanto a polícia se comunicava com o criminoso pelo megafone. O próprio sequestrador não entendeu quando aquele velho sujo, esquálido, semimorto se aproximou e pulou sobre ele. Não sabia que a moça feita refém tinha idade semelhante à de qualquer das quatro filhas do velho e que aquela batalha era seu modo de se redimir, seu jeito de dizer: errei muito, meninas; mas nunca foi um plano magoar vocês, agora dou minha vida, ainda que não valha muito, para saberem o quanto as amo. E Francisco Lima lutou com o sequestrador. E recebeu três tiros na barriga. E não resistiu; mas a moça, uma balconista, saiu ilesa.
- Ele foi um herói – disse o representante da polícia militar.
Em seu enterro, porém, numa cova comum, num cemitério de periferia, não havia nem dez pessoas.
Só uma das filhas compareceu.

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