Nesse tempo eu era casado de novo. Na festa, foi tanta cana que quase perdi a mulher. Fim de semana chuvoso assim, livre de quarentena, era todim no boteco do Buíque e eu, paulistano, filho de mineiro, virava nordestino igual. Buíque abria uma garrafa de Pitu, fatiava o caju; da padaria vinha véi Tavare, já devidamente bebo; Cunhado encostava a Kombi; Ciço alisava a careca, lambia o bigode. Eita porra! Gente tinha acordo: todo mundo cria na mentira alheia; por respeito. Duas cachaças e eu ficava rico. Falava de minha granja que tava só engordando frango, dia e noite, no Paraná; da fazenda de meu pai; do mercadinho que tinha comprado no Vila Mara - Edilsinho até me pediu emprego, mas já na segunda-feira; de modo que eu tava pobre de novo. - Vez em quando alguém exagerava; lírico. Ciço: “Tu crê, Doniê, que peguei um pacu de sessenta quilo?” Eu tumava um gole, chupava um caju: “Sessenta?” “Tô te falando, por essa luz!” “Pelamor, Ciço, a gente quer acreditar, mas diminui uns dez quilo”. O povo ria: cana pra dentro. Eu, por meu turno, fingia tão bem que, ou o povo cria, ou fingia crer, que eu também era pernambucano, nascido em Pedra, distrito de Buíque, pertim de Arcoverde. “E o que é que tem lá em Pedra, Donié?” “Tem nada não, só a Pedra mesmo!” Em quando ficava bêbo, cismava de buscar o fole em casa. Márcia prendia. Chamava a mãe. Coitada, pense numa menina nova, do interior, casada com um caba desmantelado! Sanfoneiro.
Pois bem. Dia de domingo, tinha feira na rua de casa. Eu morava de frente da casa de pai. O boteco do Buíque, ainda hoje, é na esquina. Cheguei cedo. Dia de feira era o melhor. Desci de cara duas lapadas. Copo cheio. Sacola cheia. Fiquei pueta. Alguém dava o mote e eu, em cima, cosia o verso. E aí vi a S10 cabine dupla do outro lado da rua:
- Hein, Buíque? É minha. Comprei ontem. Setenta mil, mas valeu. Carro bom. Nele, curva é o mesmo que reta.
Aí chegou Ciço:
- Donié comprou a máquina!
- Eita, porra, bora comemorá!
- Que seja, põe um quilo de linguiça na chapa, Buíque, e destampe as Brahma!
E foi que foi. E todo mundo elogiando meu carro, e eu taludo, orgulhoso de minha posse. Até que chegou o dono. Colocou as frutas no banco de trás, deu a partida e se-foi-se. Com meu carro!😱
Silêncio.
Todo mundo me olhando: oxente? E eu, ligeiro:
- Acode que o caba roubou meu carro aqui inda agorinha e ninguém faz nada. Empresta o celular que vou dar parte! Ciço, enche meu copo que tô infartando. Cunhado, qual é o número da Porto?
Tem hora que desconfio que escrevo só pelo gosto de mintir com arte.😉
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